30 de junho de 2016

O murro da catástrofe de Bouhanni e da Cofidis

(Fotografia: Facebook Team Cofidis)
Depois das cabeçadas nos sprints, Nacer Bouhanni resolveu mostrar o seus dotes de pugilista contra um homem bêbedo que o estava a incomodar num hotel. Resultado? Começou por levar pontos na mão e foi obrigado a desistir dos Nacionais franceses ao fim de poucos quilómetros, depois a ferida infectou, teve de ser sujeito a uma cirurgia e... está fora da Volta a França.

A notícia é um choque para Cofidis e para os próprios franceses que viam em Bouhanni um forte candidato, a par de Bryan Coquard (Direct Energie), a conquistar vitórias ao sprint frente a Marcel Kittel, André Greipel e Mark Cavendish. Era também apontado como um dos que lutariam pela camisola verde dos pontos. Bouhanni acaba por ser vítima do seu próprio feitio. Já se conhece o seu lado lutador, não o esconde na estrada. Já se sabe também que pratica e gosta muito de boxe - até dedicou uma vitória de etapa no Dauphiné a Muhammad Ali -, mas "praticar" em alguém acabou por lhe custar mais um Tour. No ano passado já tinha sofrido uma aparatosa queda nos Nacionais que quase o tiraram da Volta a França. Recuperou, mas há quinta etapa foi para casa, depois de mais um queda.

A Cofidis leva as mãos à cabeça. O ano foi a pensar no Tour e em Bouhanni e, por isso, Didier Rous, director desportivo da equipa francesa, não hesitou em considerar a ausência da estrela da equipa uma "catástrofe". A versão dos acontecimentos de sábado à noite foram partilhados pela Cofidis, que acredita que quando o ciclista foi ao hospital após a agressão, este não recebeu o tratamento adequado. No domingo, mesmo após a desistência dos Nacionais, a Cofidis divulgava que Bouhanni estaria na Volta a França. Porém, a infecção que surgiu depois e a cirurgia necessária para tratar da mão, mais os tratamento que ainda terá de receber, colocou um ponto final no principal objectivo do ano para a equipa, que viu Bouhanni ter um problema na corrente que o tirou da luta no sprint da Milano-San Remo, monumento conquistado pelo rival Arnaud Démare (FDJ).

Recuando àquele sábado, o grupo estaria a fazer barulho no quarto de hotel ao lado do de Bouhanni, já de madrugada. O ciclista apelou que acabassem com o barulho e um homem alcoolizado tentou agredir o francês, que respondeu e acertou um murro na pessoa. Mais uma vez, esta foi a versão divulgada pela Cofidis.

Bouhanni reagiu a uma situação como se calhar muitos o variam, ao tentar que as pessoas fizessem pouco barulho. Mas certamente que a Cofidis já pensa se tudo não deveria ter sido tratado de outra maneira, por terceiros (segurança ou responsável do hotel?) e não um confronto directo com potencial para acabar mal. Um incidente que só pode ser considerado de ridículo pode ter arruinado o Tour para a equipa.

Didier Rous admite que será uma Volta a França difícil para a Cofidis, construída a pensar em Bouhanni. Nicolas Edet é um homem com características completamente diferente. Será mais a pensar numa boa classificação na geral ou talvez uma etapa, mas até Rous sabe que a equipa corre sérios riscos de passar ao lado da competição onde mais precisa de se mostrar.

Bouhanni é uma forte aposta financeira da Cofidis e era no Tour que tinha a responsabilidade de rentabilizar uma boa parte dessa aposta. Dois anos na equipa e nenhuma vitória na Volta a França. Dada a razão da ausência, Bouhanni estará sobre pressão para alcançar bons resultados até ao final do ano. 2016 até estava a ser positivo, apesar da desclassificação numa etapa do Paris-Nice, quando encostou Michael Matthews às grades, e de umas cabeçadas no Critérium du Dauphiné: soma sete vitórias de etapas, quatro em provas World Tour. Porém, um murro tirou-o da Volta a França... um murro...

29 de junho de 2016

Uma daquelas histórias do ciclismo (na primeira pessoa)

Um passeio que poderia ter sido como tantos outros, talvez um pouco mais penoso dado o mais de um mês sem pegar na bicicleta, mas que de repente se transformou num daqueles que nos recorda que o ciclismo é muito mais do que um simples desporto, é um mundo de histórias, de vivências que nunca nos deixam de surpreender e cativar.

Quando pela segunda vez um grupo de três ciclistas me ultrapassou, voltaram a cumprimentar-me. Mas desta vez um deles deixou-se ficar ao meu lado. Pensou que me tinha visto um dia a ser chamada à atenção pela polícia por ter passado um sinal vermelho. Não tinha sido eu, mas foi o mote para o início de uma conversa sobre o respeito (ou falta dele) pelas regras de trânsito por parte de quem utiliza a bicicleta na estrada. Uma conversa enquanto se pedalava. Eis que o senhor se apresenta ao fim de alguns minutos: "Chamo-me Vítor Correia, tenho 70 anos e corri ao lado do Joaquim Agostinho." Soaram os alarmes na minha cabeça. "Aqui está alguém que terá muito para contar", pensei. E pensei bem!

Vítor Correia recordou o primeiro dia em que Agostinho se apresentou no Sporting e como depois do treino ficou à porte do restaurante, pois o único dinheiro que tinha era para pagar o autocarro. "O Sporting paga e se não pagar, pago eu", disse-lhe Vítor Correia. Agostinho teve direito a uma refeição e principalmente nunca esqueceu o gesto do novo colega. "Esta história saiu num jornal sabe?". Não sabia, mas certamente que não a vou esquecer.

A conversa ainda continuou mais um pouco, sobre algumas aventuras nestes passeios matinais, mas a minha falta de ritmo não me permitiu continuar a acompanhar o senhor Vítor Correia que tanta história parece ter para contar. Um dos membros do trio contou-me que infelizmente Vítor Correia acabou por se chatear com quem mandava e não teve a carreira que talvez merecesse, isto numa altura que em que o víamos arrancar por entre os carros. 70 anos? Ninguém tentou acompanhá-lo. "A idade engana", desabou o companheiro de pedaladas, enquanto Vítor Correia desaparecia na estrada a um ritmo de fazer inveja a muita gente.

Foram alguns minutos de convivência que recordam como esta modalidade tem tanto para contar... e que não tem idade para a praticar.

Ao Vítor Correia resta-me desejar muitas e longas pedaladas, esperando voltar a encontrá-lo na estrada. Além das histórias, muito melhorei no ritmo sem ter dado conta... Dei umas horas depois, pagando com uma valente dor de pernas! Mas valeu a pena!

26 de junho de 2016

Muitos Nacionais, muita Tinkoff... e um campeão do mundo português

(Fotografia: @UCI_MTB)
Há que começar por um campeão do mundo. É português e deu o segundo título mundial ao país depois de Rui Costa em 2013. Saímos da estrada para o BTT e Tiago Ferreira é o nome a reter ao alcançar mais um feito histórico do ciclismo nacional, vencendo o Campeonato do Mundo de Maratonas BTT (XCM), em Laissac, França.

Foram 90 quilómetros muito duros, com 3130 metros de acumulado de subida. Tiago Ferreira andou sempre na frente e terminou o percurso em 4:01:57 segundos. Seguiu-se o austríaco Alban Lakata (a 19 segundos) e o checo Kristian Hynek (a 56 segundos). Este título de BTT pode não ter a projecção de um de Estrada, mas merece o mesmo reconhecimento. Portugal tem mais um campeão do mundo de ciclismo!

"Estou com a camisola de campeão vestida, mas ainda não pensei como será passar um ano de arco-íris. Por enquanto, ainda quase nem acredito”, confessou, em declarações à Federação Portuguesa de Ciclismo.

“Foi uma corrida perfeita do Tiago, que fez uma gestão táctica fantástica, cumprindo com todas as indicações. A prova desenrolou-se como queríamos e vivemos um dia espectacular, com dezenas de portugueses a comemorar a vitória na meta", explicou o seleccionador nacional, Pedro Vigário.

Tiago Ferreira vai estar nos Jogos Olímpicos, juntamente com David Rosa.


Regressando à estrada...

Este domingo foi um dia de decidir muitos campeões nacionais - alguns já tinham sido conhecidos no sábado - e claro que se destaca o português: José Mendes sucede a Rui Costa e alcança um título merecido e que certamente o motivará, numa altura em que recebeu a decepcionante notícia que a Bora-Argon 18 não o escolheu para ir à Volta a França. Era um título há muito ambicionado por José Mendes e que chegou finalmente aos 31 anos.

O ciclista já havia mostrado na sexta-feira estar em bom momento, ao ser segundo no contra-relógio, atrás de Nelson Oliveira. Este domingo em Braga as posições inverteram-se. Nelson atacou perto do fim e só José Mendes o acompanhou, acabando por ser o mais forte nos 177,1 quilómetros. Nelson ficou a 18 segundos e Ricardo Vilela fechou o pódio, ao cortar a meta a 59 segundos do vencedor.

Destaque ainda para a prova dos sub-23, que se realizou no sábado. Ruben Guerreiro (Axeon-Hagens Berman) confirmou a boa época que está a fazer conquistando o título nacional. Segundo há um ano, Ruben confirmou as expectativas, com Nuno Bico (Klein Constantia), campeão de 2015, a ficar em terceiro e com Hugo Nunes (Anicolor) a ser segundo.

Uma surpresa chamada Sagan

A primeira grande vitória de Juraj Sagan
(Fotografia: @tinkoff_team)
Se a Movistar dominou nos contra-relógios, a Tinkoff teve um dia memorável nas provas em linha. E houve uma surpresa: Sagan é campeão da Eslováquia. Sim, surpresa, porque falamos do Juraj Sagan o irmão mais novo de Peter, que ficou em segundo. A Tinkoff dominou o pódio neste país, pois Michael Kolar foi terceiro.

Mas voltando aos títulos - haverão muitas camisolas diferentes para fazer na equipa russa até ao final do ano, quando fechar portas -, Roman Kreuziger foi campeão na República Checa, Rafal Majka na Polónia e Adam Blythe na Grã-Bretanha. O triunfo de Blythe foi talvez o mais inesperado de todos (ainda mais do que o de Juraj Sagan), pois bateu ao sprint o super favorito Mark Cavendish que até se sentou ao ver que não conseguia ser mais forte que Blythe.

Aqui ficam alguns dos outros campeões: José Joaquín Rojas (Espanha - e a Movistar fica também com este título que pertencia a Alejandro Valverde), Giacomo Nizzolo (Itália), Arthur Vichot (França), Edvald Boasson Hagen (Noruega), Nicholas Roche (Irlanda), Bob Jungels (Luxemburgo) - estes últimos três venceram também no contra-relógio - Jonathan Fumeaux (Suíça) - Fabian Cancellara venceu no contra-relógio - , André Greipel (Alemanha), Pavel  Kochetkov (Rússia), Ramunas Navardauskas (Lituânia), Philippe Gilbert (Bélgica), Matthias Brändle (Áustria) e Dylan Groenewegen (Holanda).

Resolvida a questão dos títulos nacionais, a partir de agora todas as atenções irão estar centradas na Volta a França, que começa no sábado.

24 de junho de 2016

Nelson Oliveira dominador e uma super Movistar

(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
Nelson Oliveira continua a ser o melhor contra-relogista português. Para que não existam dúvidas, o ciclista vai somando títulos nacionais. E já lá vão quatro (também tem um na prova em linha). Mas o título de Nelson confirma muito mais do que o seu estatuto em Portugal, confirma como a Movistar é uma super equipa no que diz respeito a esta vertente do ciclismo. E confirma ainda como foi acertada a decisão de Nelson em trocar a Lampre-Merida pelo conjunto espanhol. Na Movistar tem a possibilidade de explorar e melhorar todo o seu potencial como contra-relogista.

A Movistar poderá ter na Volta a França três campeões nacionais de contra-relógio e outros tantos que poderiam ter sido. A equipa que apoiará Nairo Quintana ainda não foi anunciada, mas chegará ao Tour com muitos ciclistas motivados. E ainda falta a prova em linha dos Campeonatos Nacionais. Além de Nelson Oliveira, Ion Izagirre foi campeão em Espanha e Alex Dowsett na Grã-Bretanha. Para o espanhol foi o primeiro título, para o britânico o quarto. Não que fosse preciso, mas para comprovar ainda mais o poderio da Movistar, o pódio em Espanha foi todo da equipa: Jonathan Castroviejo (a 22 segundos) foi segundo e Alejandro Valverde (a 25) terceiro. Um pouco mais longe a nível de tempo ficou Jesús Herrada, a 1:22 minutos, que ainda assim lhe valeu o quarto posto.

Mas continuando nos pódios e viajando até à Alemanha, o jovem Jasha Sütterlin (23 anos) ficou em segundo lugar,  a 1:39 minutos atrás do inevitável Tony Martin (Ettix-QuickStep).

Este trabalho da Movistar nos contra-relógios já há alguns anos que impõe respeito aos adversários. Rui Costa, por exemplo, foi um dos ciclistas que beneficiou do treino específico que a equipa espanhola faz, até assinar pela Lampre-Merida. Mais recente temos um Nairo Quintana que parece estar preparado para se defender muito bem quando enfrentar os contra-relógios na Volta a França.

Regressando a Nelson Oliveira, o ciclista da Anadia conhecia bem o circuito de Braga, já que era igual ao de há um ano. Foi o terceiro título consecutivo, depois de ter conquistado o primeiro em 2011. O número coloca Nelson Oliveira como recordista de conquistas nacionais de contra-relógio, batendo um dos grandes nomes do ciclismo português: José Azevedo (1996, 1997 e 2001).

José Mendes (Bora-Argon) foi segundo ficando a 1:13 minutos de Nelson Oliveira, que cumpriu o circuito de quatro voltas de 36 quilómetros em 43:50. À mesma distância ficou Rafael Reis (W52-FC Porto), que completou o pódio. Aos 23 anos, o ciclista - que foi quarto classificado nos Mundiais de Ponferrada em 2014, na categoria de sub-23 - deixou já a sua marca na elite, naquele que está a ser um ano muito positivo para Rafael Reis. Ao fim da primeira volta até era líder, mas Nelson Oliveira acabou por ser superior nas restantes três.

Em sub-23, o campeão nacional foi Gaspar Gonçalves, da Liberty Seguros/Carglass. A equipa contou ainda com Ivo Oliveira no terceiro lugar, a 22 segundos do colega, que finalizou os 27 quilómetros em 34:20 minutos. Em segundo ficou Jorge Magalhães (Anicolor), com mais 14 segundos.

CALENDÁRIO:

Sábado (25): prova em linha sub-23, 14 horas;


Domingo (26): prova em linha elite, 11 horas.

23 de junho de 2016

Nacionais de Estrada sem campeão, mas com candidatos a prometer espectáculo

Nelson Oliveira e Rafael Reis. É uma das lutas que mais interesse terá nos Campeonatos Nacionais de Estrada que se realizam de sexta-feira a domingo. Com o percurso idêntico ao do ano passado e sem o mais conceituado ciclista português da actualidade e campeão em título - Rui Costa abdicou de estar presente -, ainda assim estes Nacionais terão alguns pontos de interesse. Mas este "frente-a-frente" no contra-relógio tem tudo para ser um dos grandes momentos destes Nacionais.

Aos 23 anos, Rafael Reis é um ciclista em ascensão. Trocou o Tavira pelo W52-FC Porto e a mudança fez-lhe muito bem. Tem sido um dos ciclistas em destaque esta temporada em Portugal, somando bons resultados que lhe valem a liderança no ranking nacional. Entre as vitórias que já tem, destaca-se a recente conquista do Grande Prémio Jornal de Notícias que certamente o motivou ainda mais tanto para estes Nacionais como para a Volta a Portugal.

Rafael Reis é considerado um talento com grande futuro. E claro que ajudou o quarto lugar no contra-relógio dos Mundiais em 2014, em sub-23. Porém, o ciclista português soube continuar a evoluir e tem comprovado toda a expectativa que desde então se foi criando. Em Braga tem a oportunidade de conquistar o seu primeiro grande título de elite e apesar da sua juventude, Rafael Reis tem demonstrado muita maturidade.

Um aviso para Nelson Oliveira, o grande favorito a conquistar mais um título e este ano tentará repetir a dobradinha de 2014, quando conquistou o contra-relógio e a prova em linha. A cumprir a primeira temporada na Movistar, a queda no Paris-Roubaix acabou por lhe estragar parte da temporada. Porém, está na pré-selecção para a Volta a França e Nelson Oliveira talvez tenha em Portugal a possibilidade de mostrar que é alguém que Nairo Quintana quererá ter a seu lado.

Um especialista no contra-relógio, campeão nacional em 2011, 2014 e 2015, aos 27 anos Nelson Oliveira foi para uma das equipas que melhor trabalha esta modalidade. Quintana é um exemplo disso. O colombiano tinha muitas dificuldades, mas agora não só se defende bem, como surpreendeu todos ao vencer o esforço individual na Route du Sud. Portanto, é de imaginar que um especialista como Nelson Oliveira tenha tudo para finalmente se afirmar como um dos melhores do mundo. Terá a sua oportunidade nos Jogos Olímpicos e nos Mundiais, mas para já quererá certamente renovar a coroa nacional.

Tem a experiência do seu lado, mas Rafael Reis promete não só seguir as pisadas de Nelson Oliveira, como tem tudo para se tornar num rival de respeito neste encontro na estrada bracarense. 

Sem Rui Costa e Tiago Machado, mas com muitos candidatos

Se no contra-relógio dois nomes apresentam-se como grandes favoritos, já na prova em linha está tudo muito em aberto. Rui Costa decidiu não vir defender o título de 2015. Tiago Machado tenta recuperar a forma depois de uma virose que o forçou a abandonar a Volta a Suíça e também é uma ausência de luxo. Mas se há algo que o ciclismo português tem de bom é o número cada vez maior de atletas de grande qualidade, o que aumenta o interesse nestes Nacionais.

José Gonçalves tem estado irrepreensível em 2016. A vitória na Volta à Turquia foi o culminar de grandes exibições pela Caja Rural. Se no ano passado, com as performances na Vuelta, o português colocou definitivamente o seu nome na rota do World Tour, com a excelente conquista da prova turca será difícil não ver José Gonçalves chegar ao principal escalão muito em breve. Um título nacional assentar-lhe-ia bem e é desde logo um dos principais candidatos. No entanto, tem uma concorrência do próprio colega de equipa Ricardo Vilela e cuidado com o gémeo Domingos Gonçalves que em 2011 foi segundo nos Nacionais. André Cardoso (Cannondale), Bruno Pires (Team Roth) e José Mendes (Bora-Argon 18) são os restantes "emigrantes" e todos eles candidatos de peso.

Mas olhando para o pelotão nacional, há um Joni Brandão (Efapel) a realizar uma grande temporada, rumo ao sonho de ganhar a Volta a Portugal. O ciclista de Santa Maria da Feira tem somado vitórias moralizadoras e foi campeão em 2013. Há um ano foi batido por Rui Costa e terá alguma contas a ajustar em Braga. É definitivamente um dos grandes favoritos.

Amaro Antunes (LA Alumínios-Antarte) teve um forte início de temporada com um excelente 10º lugar numa Volta ao Algarve recheada de estrelas internacionais. A restante época tem sido consistente e não será de admirar vê-lo entre os melhores. Alguma curiosidade para ver Frederico Figueiredo. O ciclista da Rádio Popular-Boavista tem feito uma evolução que já lhe vai dando reconhecimento além fronteiras. Tem resultados muito interessantes principalmente em Espanha, mas também na corrida francesa Route du Sud. Este ano parece apresentar-se em boa forma e porque não colocá-lo como um outsider de muito respeito.

CALENDÁRIO

Sexta-feira (24): contra-relógio sub-23, 11 horas; contra-relógio elite, 15 horas;

Sábado (25): prova em linha sub-23, 14 horas;

Domingo (26): prova em linha elite, 11 horas.

20 de junho de 2016

Dream Team colombiano nos Jogos Olímpicos

Uran venceu a medalha de prata há quatro anos e considera que em 2016
a Colômbia tem uma oportunidade histórica para ganhar a de ouro
(Fotografia: Facebook @FansRigobertoUran)

Ainda há uma Volta a França antes dos ciclistas começarem a concentrar-se nos Jogos Olímpicos, mas na Colômbia já se pensa no Rio2016. E perceber-se porquê. É que dificilmente se encontrará uma selecção em que qualquer um dos atletas pode conquistar uma medalha. Com estes cinco ciclistas, a aposta no ouro é o objectivo.

Espanha, Itália, Grã-Bretanha - para referir três das nações que neste momento têm dos melhores ciclistas - apresentarão equipas fortes, mas será difícil dizer que, perante as dificuldades do percurso, qualquer um dos seleccionados poderá ganhar. O normal é alguns serem convocados para trabalharem para um plano A e plano B, eventualmente um C, já que qualquer destes países terá opções para tal. Mas agora vejamos a Colômbia, que tem direito a cinco atletas: Nairo Quintana, Rigoberto Uran, Johan Esteban Chaves, Sergio Henao e Miguel Ángel López.

Começando pelo último, López será o mais desconhecido, mas o jovem colombiano apresentou-se na Volta à Suíça: ganhou-a! Sendo uma competição que atrai ciclistas que preparam o Tour, López escolheu a prova perfeita para mostrar credenciais. Tem apenas 22 anos, mas a Astana já há muito que percebeu que tem um ciclista de futuro para as três semanas. Com a vitória na Suíça, López entrou no radar dos jovens a ter em atenção para a próxima Volta a Espanha e convenceu o seleccionador colombiano, Carlos Mario Jaramillo. Acaba por ser a surpresa nesta convocatória, ficando de fora nomes como Sebastián Henao e John Darwin Atapuma.

Quanto aos restantes quatro, não precisam de grandes apresentações: Quintana (26 anos) já venceu o Giro, tem dois segundos lugares no Tour e foi o melhor trepador em 2013 e poderá chegar aos Jogos Olímpicos como vencedor da Volta a França; Uran (29) tem dois segundos lugares no Giro e conquistou a medalha de prata em Londres nos Jogos Olímpicos de 2012 - foi batido nos últimos metros por Alexandr Vinokourov; Chaves (26) esteve perto de ganhar o Giro este ano, terminando no que foi um brilhante segundo lugar, dando assim sequência à subida de forma que está a demonstrar desde 2015, sendo um candidato na próxima Vuelta; Henao (28) ultrapassou mais uma suspeita de doping quando teve de justificar irregularidades detectadas no seu passaporte biológico, situação que obrigou-o a parar quando estava a realizar um início de temporada sensacional, mas o colombiano está a recuperar a forma.

Estes nomes comprovam como nos últimos anos esta geração colombiana comprovou as expectativas, tornando-se fortíssima, com López a mostrar que a que aí vem também tem muito potencial.

Quem será o líder?

É a grande questão e certamente a preocupação de quem tem de decidir. Dream Teams no ciclismo têm este problema: mais do que um líder tem a tendência a acabar mal. Porém, como dizer a Uran que tem de trabalhar para Quintana, ou a Quintana que tem de abdicar da vitória por um colega? Numa situação destas - que qualquer seleccionador gostaria de estar (!) - a gestão de egos é essencial e mais importante será organizar uma táctica que até poderá abrir portas a todos lutarem pela medalha... ou quase todos. Mas o mais importante resume-se a uma palavra: união. É o que se pede e é já o que Uran salientou ser essencial.

Não será de estranhar que a nível táctico um Henao ou Chaves esteja numa fuga e será certamente de apostar que quando chegar o momento decisivo a Colômbia possa ter mais do que um ciclista numa boa posição. Admitindo ou não publicamente, dificilmente Quintana não será o líder, mas com as características do quinteto, haverá a possibilidade de ataques que poderão obrigar outros líderes - Contador, Nibali, Froome, por exemplo - a não dar espaço, não podendo apenas concentrarem-se em Quintana.

Claro que a Colômbia não será a única selecção com várias apostas e não faltam nomes para animar a prova: Aru, Valverde, Pinot, Bardet (estes dois pela França), Rodríguez... e claro que temos esperança de ter Rui Costa na luta, sendo para já o único português que, em condições normais, tem lugar garantido na equipa olímpica, ainda por anunciar.

Uma coisa é certa, este quinteto colombiano vai impor muito respeito. Os Jogos Olímpicos prometem uma prova de grande espectáculo que estes trepadores querem aproveitar, já que não sabem quando e se na sua carreira voltarão a ter um percurso à sua medida. Por isso mesmo, Rigoberto Uran diz ser uma "oportunidade histórica para a Colômbia ganhar a medalha de ouro".

NOTA: No final da Volta a França, Nairo Quintana anunciou que não iria aos Jogos Olímpicos, sendo substituído por Jarlison Pantano (IAM), de 27 anos, que venceu uma etapa no Tour.

19 de junho de 2016

A noção que ganhou uma fama indesejada

(Fotografia: Flickr - Brian Townsley)
Simon Yates juntou-se à lista dos "embaraçados". Uma lista composta por ciclistas apanhados em casos de doping com contornos estranhos e muitas vezes ridículos. É o caso do britânico. Uma análise feita durante o Paris-Nice detectou uma substância utilizada num medicamento para a asma, que o médico da Orica-GreenEDGE deu a Yates... e esqueceu-se de avisar! Um médico  de uma equipa profissional, ciente de todos os problemas e desconfiança que afectam o ciclismo, ciente de como pode ser rigoroso o controlo anti-doping, esqueceu-se de alertar que um ciclista de uma equipa World Tour estava a tomar um produto com uma substância que está na lista das proibidas...

A terbutalina tramou Yates e o próprio admite que este caso de doping marcará a sua carreira. Em qualquer grande resultado que alcance, haverá sempre esta mancha no currículo de um ciclista visto como uma das grandes promessas britânicas. Poderá dizer-se que é injusto, ainda mais quando parece ter sido um "descuido" que nem foi da responsabilidade do corredor. Mas o "bife à Contador" acompanhará para sempre um dos grandes nomes da modalidade e até Rui Costa, quando se sagrou campeão do mundo, não se livrou de quem recordasse que já tinha tido um controlo positivo - em 2010 -, mesmo que tenha sido considerada uma dopagem involuntária. Por mais insignificante que possa ser, nenhum ciclista consegue apagar a suspeita depois de acusar positivo. Há sempre alguém que não deixará esquecer.

Foi precisamente desse tipo de dopagem involuntária de que Yates foi acusado. Por isso, a UCI optou por uma pena leve, de apenas quatro meses de suspensão. O suficiente para tirar Yates da Volta a França, onde deveria fazer dupla com o irmão gémeo, Adam, no ataque à geral. O castigo vigora até 11 de Julho.

"Haverá uma suspeita sobre o meu nome, nos resultados que alcancei e em glórias futuras", escreveu Simon Yates, que aos 23 anos mostra maturidade suficiente para saber que mesmo quanto tiver 33 anos, este controlo positivo será recordado. Sabe que ganhou uma fama indesejada. O próprio admite estar embaraçado e de como contribuiu, mesmo de forma involuntária, para mais uma situação de doping que tanto tem prejudicado a modalidade.

Quando a UCI divulgou que Simon Yates tinha acusado terbutalina, a Orica-GreenEDGE apressou-se a assumir a responsabilidade. Acreditando na versão da equipa australiana e que Yates de nada sabia e que a substância foi para tratar a asma, suspensão por doping involuntário acaba por ter um carácter de abrir os olhos ao ciclista em causa. Yates confiou no médico da equipa e é assim que deve ser. No entanto, num desporto tão escrutinado, o britânico aprendeu que ele próprio tem de controlar todos os aspectos da sua carreira ao mais pequeno pormenor. Mais do que nunca está proibido de ser alvo de outros "descuidos".

16 de junho de 2016

Nairo Quintana: tudo pela Volta a França

(Fotografia: Facebook Movistar Team)
Quer a Volta a França. Faz tudo pela Volta a França. Não há nada mais importante do que a Volta a França. É a obsessão de Nairo Quintana. Em ano de Jogos Olímpicos, até Alberto Contador admite que também vai apostar na conquista da medalha no Rio de Janeiro. Mas não Quintana. Não é que não queira outros grandes triunfos. No entanto, até terminar o Tour é nas estradas de França que o pequeno colombiano está focado e toda a preparação até ao momento é pensada apenas e só em ganhar o Tour.

Discreto, muito discreto. É assim que tem andado Quintana em 2016. Mas apenas em dias de provas. Tem preferido resguardar-se na Colômbia, no seu treino em altitude. Participou em apenas quatro competições por etapas e os resultados, esses, são tudo menos discretos: dois terceiros lugares (Tour de San Luis e Volta ao País Basco - que perdeu para Contador) e dois primeiros (Volta à Catalunha - bateu o espanhol e Froome - e Volta à Romandia). Optou por não ir ao Critérium du Dauphiné ou à Volta à Suíça, duas provas vistas como de preparação para a Volta a França. Está a repetir a Route du Sud e a surpresa será se não sair de lá com mais um bom resultado (muito provavelmente a vitória).

Aos 26 anos, Quintana já soma dois segundos lugares do Tour (em 2013 foi também o rei dos trepadores), ambos atrás de Chris Froome. Pelo meio conquistou uma Volta a Itália, que participou algo contrariado, pois a Movistar preferiu dividir os seus principais ciclistas, dando a Alejandro Valverde a derradeira oportunidade de liderar na Volta a França. A promessa feita ao colombiano era que a partir daí seria o líder indiscutível. E assim foi.

Em 2015, o vento provocou um corte no pelotão e Quintana foi apanhado. Esse tempo perdido (1:28 minuto), mais aquele que Froome impôs num ataque brutal no dia a seguir ao descanso, sentenciou praticamente o Tour. Quintana reagiu na última semana e no Alpe d'Huez quase conseguiu o impensável. Terminou a 1:12 e ficou a sensação que o colombiano poderia muito bem ter conquistado aquela Volta a França.

Antes de começar a Route du Sud, Quintana recordou como se riram dele quando um dia disse que queria ganhar etapas no Tour e até vencer a mítica competição. E não ficam dúvidas do intenso desejo de concretizar o #SueñoAmarillo: "Ganhar a Volta a França sempre foi o meu sonho. Quando ia pedalar com os meus colegas e lhes dizia que um dia queria ganhar etapas e a geral, eles riam-se. Eu disse-lhes: 'Riam-se, mas eu vou lá e pelo menos tentar.'"

Certamente que agora já não se estão a rir. Quintana aposta forte este ano e está atento a Froome e Contador, os seus principais rivais. Destacou mesmo como o britânico está a realizar uma preparação idêntica à sua, com menos competição e com a perspectiva de estar forte na terceira semana.

Por agora Quintana está a testar a sua condição na Route du Sud. O pelotão não lhe oferecerá grande resistência, mas não é isso que o colombiano procura. Está preocupado apenas com o que pode fazer, de tal forma que esta quinta-feira até andou em fuga! Quentin Jauregui (AG2R) deve-se ter beliscado uma quantas vezes para acreditar quem tinha como companheiro de fuga! Mas lá está, foi apenas um teste sem ideias de vencer. Quando chegar a montanha haverá tempo para o show Quintana. Ainda assim comprova: Quintana está com muitas ganas para não deixar Froome ou Contador vencer o Tour pela terceira vez. Ele quer que 2016 seja o ano da sua primeira vitória na La Grande Boucle.

14 de junho de 2016

Muito Froome, falta um pouco mais de Contador

(Fotografia: Team Sky)
Metódico, frieza na análise da corrida, explosivo. Chris Froome está em grande forma a duas semanas do Tour e diz que ainda tem de melhorar! Já Alberto Contador esteve avassalador no início, mas foi perdendo de dia para dia, mostrando que ainda tem trabalho a fazer se quer lutar pela Volta a França. O Critérium du Dauphiné levantou um pouco o véu sobre como estão os ciclistas que sonham alto para o Tour, tendo-se destacado um francês: Romain Bardet.

Na luta entre dois dos principais candidatos - Nairo Quintana preferiu resguardar-se de embates directos e estará na Route du Sud - Froome foi o claro vencedor. Contador fez uma crono-escalada assustadora. O britânico esteve muito bem, mas o espanhol entrou com tudo... e ali deixou tudo. A partir de então Contador foi mostrando dificuldades em acompanhar o rival e quando Froome atacou - depois de se ter deixado ficar um pouco para trás no que não passou de um enorme bluff - o ciclista da Tinkoff não conseguiu acompanhar o ritmo louco do britânico.

À boa maneira de Contador, o espanhol nunca desistiu e tentou testar Froome, mas principalmente testou-se a si próprio. Antes do arranque do Dauphiné, Contador alertou que estava ali para perceber como estava e ao terminar sabe que ainda tem algum trabalho a fazer. O espanhol teve um pico de forma logo no início do ano (que foi possível ver na Volta ao Algarve) e agora tenta apontar para as três semanas mais importantes da sua temporada. E ainda tem tempo. Não há motivos para alarme.

Froome está neste momento muito bem, no entanto, ainda quer melhorar, tendo destacado que a pouca competição que tem feito em 2016 foi uma decisão feita a pensar na terceira semana da Volta a França, durante a qual quer estar no seu melhor. Certamente que no pensamento do ciclista da Sky está o Tour de 2015, no qual, não fosse a vantagem conquistada anteriormente, arriscou perder a prova para Quintana na última semana.

Um pormenor que vale o que vale: sempre que ganhou o Dauphiné, Froome venceu o Tour.

Bardet "venceu" Pinot

Thibaut Pinot até ganhou a etapa rainha do Dauphiné num sprint com Romain Bardet, mas olhando para toda a prova, o ciclista da AG2R revelou-se melhor e mais promissor para o Tour. 2016 tem sido um ano fantástico para Pinot, com Bardet mais discreto, mas claramente este último guardou-se para o Tour e quase tão importante, mostrou também que tem uma equipa com qualidade para o apoiar... Convém é evitar toques entre colegas que resultam em quedas ridículas e que, neste caso, poderá ter arruinado a possibilidade de vencer o Dauphiné. Ainda assim foi segundo, a 12 segundos de Froome.

Já Pinot está à procura do seu melhor, ficando a dúvida se não terá optado por esconder um pouco o jogo ao perceber que ainda não está no ponto para fazer frente aos favoritos. Porém, o ciclista da FDJ continua a ser, a par de Bardet, uma das esperanças francesas.

Mas em França há mais motivos de interesse: Pierre Rolland está finalmente a aparecer ao serviço da Cannondale (foi décimo) e Julian Alaphilippe (Etixx-QuickStep) é um forte candidato a melhor jovem, classificação que venceu no Dauphiné, ficando em sexto na geral.

A recuperação de Richie Porte

O australiano até foi quem começou por aguentar o ritmo de Froome. Agora em equipas diferentes, não há animosidade entre os dois e até parece haver espaço para uma aliança, se for necessário. Porém, se Porte mostrou estar forte e com vontade de finalmente alcançar um bom resultado numa prova de três semanas enquanto líder, o ciclista da BMC voltou a claudicar no momento da recuperação física de etapa difícil, para etapa difícil. Se Porte quer ser um outsider não poderá estar bem num dia e desaparecer noutro. Perdeu um lugar no pódio por falta de pernas e também por algum azar: foi tapado inadvertidamente por Froome quando tentava responder a Bardet e Martin, mas mesmo assim, o australiano já estava a fraquejar.

Etixx e Dimension Data em destaque

A Sky está naquele nível que nem a Tinkoff consegue alcançar. Porém, há duas equipas que não vão passar despercebidas no Tour. No caso da Etixx-QuickStep terá Marcel Kittel para conquistar os sprints, mas quando chegarem as montanhas, além de Alaphilippe terá Daniel Martin. Que bem fez esta mudança de equipa ao irlandês. Foi terceiro no Dauphiné e tem constantemente mostrado este ano que está muito forte. Uma vitória de etapa é o mínimo que quererá e talvez um lugar no top dez possa não ser irrealista.

Quanto à Dimension Data, a aposta inicial será em Mark Cavendish, mas são muitas as dúvidas em redor do sprinter. Estará no seu melhor na Volta a França ou a pensar nos Jogos Olímpicos? Mas a equipa que este ano chegou ao World Tour até foi a quem mais conquistou no Dauphiné: duas vitórias de etapas (com Boasson Hagen e Cummings - em mais uma fuga que já são a sua imagem de marca), conquistou a camisola dos pontos com Boasson Hagen e a da montanha por Teklehaimanot (segunda vitória consecutiva do eritreu).

Volta à Suíça e Route du Sud

O Critérium du Dauphiné ofereceu uma primeira mostra dos candidatos rumo ao Tour. Agora é esperar pelo final da Volta à Suíça e Route du Sud onde estão os restantes. Por terras helvéticas andam Rui Costa (Lampre-Merida), Tejay Van Garderen (BMC), Warren Barguil (Giant-Alpecin) e Andrew Talansky (Cannondale).

A principal notícia é que Robert Gesink está em risco de falhar o Tour. O holandês caiu na Volta à Suíça e sofreu um traumatismo craniano. A Lotto-Jumbo começa a pensar em Wilco Kelderman como principal aposta.

13 de junho de 2016

Esta sensação que falta algo na Volta a Portugal

O slogan diz que é "a mais dura e longa dos últimos". Se a distância pode ser comprovada pelos números, já a dureza fica aberta à opinião de cada um. A quarta, quinta e sexta etapa poderão ser decisivas, mas se a tradição na Senhora da Graça se mantém, passar duas vezes pela Torre sem cortar lá a meta, dá a sensação que falta algo à Volta a Portugal (de 27 de Julho a 7 de Agosto).

Não é inédito não haver uma chegada em alto na Serra da Estrela, mas tirar a Torre da Volta a Portugal é como tirar o Alpe d'Huez à Volta a França, na sua devida proporção de importância no ciclismo, claro: acontece, mas a exclusão nunca é pacífica. No caso da Torre a situação é ainda mais grave. Se em França são várias as subidas míticas, Portugal tem basicamente duas (há que admitir que cada vez mais o Alto do Malhão ganha o seu lugar como a terceira, com a ajuda de uma internacional Volta ao Algarve).

A verdade é que a Torre tem um grande simbolismo numa prova que continua a entusiasmar os portugueses. Já não atrai a atenção de outrora de equipas estrangeiras, mas cá dentro, as formações nacionais estão um ano a preparar aqueles dez dias de competição. Aqueles dez dias em que a atenção finalmente se centra nelas. Os adeptos, uns mais apaixonados pela modalidade, outros pela convivência que só ciclismo proporcionam, aguardam pelas grandes etapas. Será possível ver o pelotão passar duas vezes na Torre, o que é sempre agradável... mas faltará a celebração de um vencedor.

Serão ainda cerca de 70 quilómetros que separam a última passagem na Serra da Estrela da meta, uma distância que poderá permitir recuperações, podendo assim tirar alguma daquela pressão de uma etapa que normalmente assume carácter de decisiva.



Mas não sejamos fatalistas, a Volta terá o seu espectáculo e na segunda etapa a introdução de um troço de 2,2 quilómetros em terra batida, em Fafe, famoso no Rali de Portugal, é algo de entusiasmante. Provavelmente mais para quem assiste do que para quem terá de o enfrentar. Está colocado a apenas 18 quilómetros da meta, o que significa que algum problema (furo, problema mecânico, queda, por exemplo) poderá custar tempo precioso.

Tirando a questão da Torre, o percurso da Volta até se apresenta como muito interessante e há que dar as boas-vindas à Nazaré e Arruda dos Vinhos, que se estreiam nestas andanças, e, principalmente há que destacar que a Volta a Portugal volta a incluir o sul, com uma partida em Alcácer do Sal. Já começava a parecer demasiado estranho uma Volta que tinha os municípios do norte e centro do país como constantes escolhas. Mas ainda não é desta que regressará ao Algarve, algo que as equipas do Tavira e Louletano certamente gostariam.

Uma escolha que foi bastante correcta foi o contra-relógio a terminar. Em voltas curtas, etapas de consagração parecem um desperdício de dia. Se é para lutar, é para lutar até o fim. Os 32 quilómetros entre Vila Franca de Xira e Lisboa assumem uma importância extrema e será emoção até ao último metro. Ou pelo menos assim se espera.




Afinal quem é mais beneficiado?

Desde o anúncio que a Torre não receberia o final em alto que surgiram as críticas, principalmente dos candidatos portugueses. Joni Brandão apresenta-se como o principal pretendente luso, mas não ficou satisfeito com percurso. Para o ciclista da Efapel, sem a chegada à Torre e com o contra-relógio final, quem irá beneficiar serão os espanhóis Gustavo Veloso (W52-FC Porto) - vencedor das duas últimas edições -  e Alejandro Marque (LA Alumínios-Antarte). Mas os espanhóis refutam essa ideia.

Com apenas a chegada em alto na Senhora da Graça, os trepadores puros podem ser um pouco prejudicados, principalmente se tiverem dificuldades em defender-se no contra-relógio. É o caso de Joni Brandão. Tem revelado estar cada vez mais em forma rumo à Volta a Portugal, mas o português assume que o contra-relógio é algo que tem de ser trabalhado. Se conseguir melhorar, então boas prestações nas etapas mais difíceis poderão valer-lhe a conquista do tempo necessário para se defender no esforço individual da última etapa. Já Veloso e Marque poderão enfrentar a corrida com tácticas diferentes. São excelentes trepadores e não têm problemas no contra-relógio. Joni Brandão terá de atacar nas subidas, os espanhóis podem jogar mais friamente e estar mais à defesa.

Veloso e Marque estarão mais satisfeitos com o percurso, mas não são vencedores antecipados. A mudança da Torre implicará tácticas diferentes, no entanto, haverão hipóteses de se ganhar tempo para aqueles que têm mais problemas com o contra-relógio.

Porém, no jogo das palavras, Joni Brandão sai na frente. Colocou desde já a pressão do lado dos adversários, tentando dar a si próprio um papel um pouco mais secundário. Ainda assim, não engana ninguém e é nele que recai a maior esperança de voltar a ter um português a vencer a Volta, depois de Ricardo Mestre o ter feito em 2011.

Mais candidatos

A Volta a Portugal não será feita apenas de três ciclistas. São os principais candidatos, mas atenção a Rinaldo Nocentini. Aos 38 anos o italiano pode estar a preparar o final da carreira, mas o segundo lugar na Volta ao Azerbaijão comprova que Nocentini ainda quer fazer algo pelo Sporting-Tavira que aposta muito no experiente ciclista.

Quanto a portugueses, aos 25 anos Amaro Antunes (LA Alumínios-Antarte) deverá mostrar-se, mas as expectativas são muito altas para Rafael Reis. Aos 23 anos, a mudança para a W52-FC Porto está a ser muito positiva. Esta cada vez mais forte no contra-relógio e já lhe são reconhecidas as capacidades de trepador. Poderá estar tapado por ter Gustavo Veloso como líder, mas é ainda assim um outsider a ter em conta e está a realizar uma temporada espectacular.

10 de junho de 2016

Um discurso optimista, para variar

(Fotografia: Twitter @ORICA_GreenEDGE)
Depois de muito alarmismo, com Oleg Tinkov a ajudar a alimentá-lo, eis que chega um discurso mais optimista. E veio da equipa que é, provavelmente, a mais optimista do pelotão: a Orica-GreenEDGE. À primeira vista, o anúncio que a Orica vai terminar o patrocínio ao conjunto australiano parece ser mais uma preocupação quanto a mais uma equipa do World Tour. Porém, do mau destaca-se algo positivo: a Orica vai permanecer ainda em 2017, dando mais de um ano para se encontrar um novo patrocinador.

Uma postura diferente do que normalmente se vê, com directores desportivos muitas vezes a terem com missões complicadas de encontrar patrocínios em poucos meses para manter vivo um projecto, o que prejudica muito o planeamento do futuro. Basta recuar a 2015 para ver como a saída da Europcar quase foi o fim da estrutura francesa que, in extremis, encontrou a Direct Energie. No entanto, não conseguiu evitar a saída de um dos seus melhores ciclistas, Pierre Rolland.

A Orica - uma empresa da indústria mineira - considerou que chegou o momento de sair, mas perante os resultados muito positivos que a equipa conquistou desde que foi criada em 2012 - uma média de cerca 40 vitórias por ano, que incluem dois monumentos (Milan-San Remo no ano de estreia com Simon Gerrans e o Paris-Roubaix em 2016 com Mathew Hayman) - as perspectivas são que a formação tenha todas as condições de continuar além de 2017, ainda mais quando claramente se vai transformando também num conjunto a ter em conta para as grandes voltas e não só para sprints ou provas de um dia.

Desde que chegou ao ciclismo que a Orica mudou a forma das equipas interagiram com os seus adeptos. Com uma utilização perfeita das redes sociais, o conjunto australiano rapidamente se tornou popular pela forma como mostra o outro lado do ciclismo, o lado fora dos momentos competitivos em estrada. Não é a única que agora o faz, mas marcou pela diferença e a internet tornou-se um meio das equipas "venderem" de forma muito eficaz os seus patrocinadores. E é precisamente essa forma de estar da Orica que poderá convencer com maior facilidade uma empresa em apostar na equipa: além dos resultados, está constantemente a mostrar-se aos adeptos com vídeos, fotografias e o que mais se lembrarem para apelar à atenção dos adeptos.


Com ciclistas jovens de talento, como Johan Esteban Chaves (segundo no último Giro), os irmãos Yates, para apostarem nas três semanas, com os homens rápidos como Michael Matthews e Caleb Ewan, além da experiência de Simon Gerrans e Michael Albasini, a equipa australiana tem uma estrutura que tem tudo para continuar no World Tour.

Perante uma má notícia, a postura da GreenEDGE (o nome com que começou a equipa) é de confiança - tanto no projecto masculino, como no feminino que têm sido muito importantes na Austrália -, num futuro sempre tão incerto no mundo dos patrocínios ao ciclismo. Um pouco de optimismo, para variar.

Mais notas optimistas

Para contrariar o pânico lançado (ou que tentou lançar) Oleg Tinkov, a BMC e a Katusha também revelaram que estão no World Tour para ficar. O dono da Tinkoff - que tudo indica fechará mesmo a equipa no final do ano - afirmou recentemente que as duas formações iriam terminar em breve. Ora a BMC já garantiu que apesar das renovações do patrocínio estarem a ser feitas anualmente, o projecto é para manter. Já a Katusha prepara-se para anunciar um segundo patrocinador, ou seja, mais dinheiro para uma equipa que aposta em Ilnur Zakarin e procura um substituto para Joaquim Rodríguez.

A Tinkoff sai acompanhada pela IAM, mas as declarações da Orica-GreenEDGE, BMC e Katusha comprovam que apesar da gestão do ciclismo precisar de mudanças, a paixão pela modalidade, juntamente com o potencial que tem em ajudar a projectar nomes de patrocinadores, vai permitindo a sobrevivência deste desporto. Como sempre tem acontecido.

Porém, se os anúncios da BMC e Katusha, assim como o optimismo da Orica-GreenEDGE, além dos rumores de uma nova equipa liderada por Alberto Contador e a eventual entrada de um projecto made in Bahrain, serem tudo provas que o ciclismo sabe enfrentar as dificuldades de uma crise, aguarda-se que a UCI revele como será o futuro a curto-prazo. Mas espera continua...

9 de junho de 2016

A vontade olímpica de conquistar aquela medalha

(Imagem: print screen)
O percurso da prova de estrada dos Jogos Olímpicos é sempre a subir. As oito subidas de quarta categoria até poderiam não assustar ciclistas como Peter Sagan. Porém, as três primeira categorias em cerca de 60 quilómetros fazem com que este ano os Jogos tenham interessado mais a atletas como Alberto Contador e Vincenzo Nibali, por exemplo, que já assumiram que a corrida do Rio de Janeiro é um dos objectivos do ano. Os sprinters  e homens com características que não combinam com subidas difíceis, vão antes virar-se para os Mundiais. No entanto, vencedores natos como Sagan, não desistem tão facilmente. O eslovaco encontrou a forma de ter hipótese em conquistar o ouro olímpico sem ter de esperar mais quatro anos: vai regressar ao BTT.

Após as clássicas da primavera, o campeão do mundo de estrada fez uma pausa do alcatrão e foi matar saudadas da terra batida. Participou em duas provas, uma não terminou e foi quarto na outra (e não nos podemos esquecer que Sagan foi campeão do mundo em juniores da modalidade). Nessa altura já se devia esperar que o eslovaco estava a preparar alguma surpresa. E aí está ela: trocou o lugar na prova de estrada nos Jogos Olímpicos pelo do BTT. Aquelas subidas no percurso de estrada não lhe dariam qualquer hipótese de chegar à medalha, mas trocando para o BTT, Sagan passa agora a estar entre os candidatos, mesmo não sendo a sua modalidade de eleição de momento. Deste ciclista espera-se tudo.

Até poderá parecer injusto incluir Sagan e não um dos ciclistas de BTT. A federação eslovaca tentou obter um wild car para enviar Sagan, mas não conseguiu. Porém, como é que poderia recusar um pedido do seu melhor ciclista? Era impossível.

O presidente da federação, Peter Privara, admite que o expectável seria ver o campeão do mundo de estrada... na estrada. Explicou ainda que após a Volta a França, Sagan irá ter quatro semanas intensas de treino no BTT, porque o objectivo não é ir ver as paisagens brasileiras.

O estatuto vale muito em momentos como este e Sagan conquistou-o com 79 vitórias como profissional aos 26 anos. Não só convenceu a federação, como a própria equipa Tinkoff parece não ter objecções com esta mudança.

Não é só na estrada que este fantástico ciclista se adapta a várias dificuldades. Não hesita em mudar de modalidade se isso lhe aumentar a possibilidade de ganhar e é esta capacidade de adaptação a qualquer situação que o irá colocar na história como um dos melhores do ciclismo... seja em que terreno for.

7 de junho de 2016

Pedalar às cabeçadas, uma marca por registar

As cabeçadas de Bouhanni a Kristoff
Já se sabe, quando chega o momento do sprint é o salve-se quem puder. A luta pela posição é uma autêntica batalha e os toques, os "chega para lá", são normais. Até as cabeçadas não são particularmente anormais. A questão é que lutar por posição não significa entrar em combates que colocam muitos ciclistas em risco. Na primeira etapa do Critérium du Dauphiné não faltaram cabeçadas, de tal forma que a Cofidis vê-se agora debaixo de fogo por parte das outras equipas. E as críticas visam mesmo Nacer Bouhanni. O francês é um dos melhores sprinters da actualidade, mas cada vez mais demonstra uma agressividade que vai além do admissível. No passado já houve quem ficasse com esta fama, mas agora é ele que começa a ficar conhecido por usar a cabeça, literalmente.

Até recentemente era Mark Cavendish quem era mais popular pelas cabeçadas nos sprints. Mas o tempo áureo do britânico já lá vai e como esta forma de sprintar não tem uma marca registada, agora é a vez de Bouhanni. Porém, o francês não quer claramente ser comparado a ninguém, por isso, junta às cabeçadas umas cargas de ombro que há que admirar a destreza que tem em aguentar-se na bicicleta, mas é absolutamente reprovável colocar constantemente em risco os outros ciclistas.

Este ano Bouhanni já foi castigado por esses exageros. Foi desclassificado numa etapa do Paris-Nice quando encostou Michael Matthews (Orica-GreenEDGE) às barreiras. Esse encostar não foi feito apenas com mudança de trajectória, chegou mesmo a empurrar com o corpo o australiano.

Na etapa do Critérium du Dauphiné a situação não foi tão grave e nem foi ele o único. Aliás, até parecia que a Cofidis tinha encontrado a forma de preparar sprints: à cabeçada, ao estilo marrada. Mas Bouhanni teve um combate directo com Alexander Kristoff (vídeo pode ser visto aqui), que inicialmente até conseguiu afastar o francês, mas acabou por não conseguir sprintar.

Um dos desportos preferidos de Bouhanni é o boxe, mas levar para a estrada a vontade de bater que tem nos ringues, poderá custar-lhe caro, principalmente em impor respeito no pelotão.

Os comissários consideraram que não houve irregularidades, mas na era das redes sociais foi fácil perceber que o que aconteceu naquela preparação de sprint não agradou. André Greipel até recordou quando em 2010 Mark Renshaw foi expulso do Tour precisamente por ter andado às cabeçadas em situação idêntica.










Bouhanni não tem de ser o senhor popularidade no pelotão. Todos gostam de um "bad boy", mas o francês tem de aprender que até o vale tudo tem limites.