31 de outubro de 2016

Quem foi o ciclista com mais vitórias em 2016? Não, não foi Peter Sagan

Foi um excelente ano para Timothy Dupont (Fotografia: Wikimedia Commons)
Entra-se naquela fase do ano em que se faz o levantamento do que aconteceu em 2016 (o melhor e o pior) e aos poucos vai-se começando a falar de 2017. Mas vamos então a um dos pontos deste ano. Quem foi que venceu mais corridas em 2016? Poderá haver uma tendência quase automática para se pensar que terá sido Peter Sagan. Porém, o eslovaco não fica com este "título" por um triunfo... Ainda que a nível de importância não há comparação possível, aqui falamos puramente de números.

E o ganhador do ano é: Timothy Dupont, belga da equipa continental Verandas Willems. Foram 15 vitórias repartidas por corridas de um dia e por etapas. A estes triunfos acrescem ainda a conquista de três classificações por pontos. Um 2016 sensacional para o ciclista de 28 anos, que tem passado a sua carreira no mesmo escalão, mas que ainda não tem futuro decidido para 2017. Com uma ajuda do site Road & Mud, os números dizem ainda que Dupont foi segundo dez vezes e terceiro em cinco ocasiões.

Já se sabe que quando se fala em segundo lugar, Peter Sagan não dá hipótese e este ano lá foram mais 12. Foi terceiro seis vezes, mas são as 14 vitórias que interessam. A primeira vitória só chegou no final de Março, mas depois não mais parou. Com a camisola de campeão do mundo conquistou o seu primeiro monumento - a Volta a Flandres, três etapas no Tour, sagrou-se ainda o primeiro campeão da Europa de elite e foi outra vez campeão do mundo. Que época para Sagan e há sempre que salientar: tem apenas 26 anos!

Em terceiro lugar uma pequena surpresa: Alexander Kristoff. Não surpreende que o norueguês seja dos que mais vence, mas o ciclista da Katusha teve uma época muito aquém do esperado. Pode ter somado 13 vitórias, mas faltaram os grandes triunfos de outros anos.

Segue-se Bryan Coquard, o sprinter francês da Direct Energie. Também ele soma 13 vitórias, nenhuma em provas de World Tour, é certo. Porém, algumas delas foram frente a rivais de luxo e ajudaram a subir o crédito do ciclista de 24 anos, que ficou de fora dos Mundiais e deve ter ficado ainda mais frustrado quando os sprinters escolhidos (Nacer Bouhanni e Arnaud Démare) nem conseguiram disputar o sprint.

Continuando. Marcel Kittel (Etixx-QuickStep) tem 12 triunfos, Bouhanni (Cofidis) 11 - podia ter mais não fosse ter andado às cabeçadas e aos empurrões nos sprints  que lhe valeram desqualificações -  os mesmos que uma das revelações do ano, o holandês Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo).

A completar o top 10 e precisamente do 10 vitórias cada um estão Mark Cavendish (Dimension Data), André Greipel (Lotto Soudal) e Chris Froome. O britânico da Sky é o único ciclista que não é sprinter a entrar top 10.

Ainda faltam algumas competições secundárias, mas já não é expectável que nenhum ciclista volte a competir, pois estão mais a pensar em começar a preparar 2017.

Em Portugal, já agora, foi Rafael Reis o ciclista que mais ganhou: oito vitórias que lhe valeram o primeiro lugar no ranking nacional.

Antigo campeão do mundo e vencedor de seis monumentos condenado por fraude

(Fotografia: Direitos Reservados)
Os últimos dias não estão a ser fáceis para antigos ciclistas e a sua relação com a lei. Depois do vencedor da Volta a Espanha de 2002, Aitor González, ter sido detido pela quarta vez, desta última suspeito de uma tentativa de assalto, agora foi o campeão do mundo de 1986 a ser condenado a um ano de prisão, tendo sido considerado culpado de fraude. Moreno Argentin foi um especialista em corridas de um dia nos anos 80 e 90 e agora era director de uma empresa que detinha propriedades.

Argentin foi acusado de estar envolvido num esquema que incluiu um agente imobiliário (também condenado). Um casal entregou dinheiro para comprar duas propriedades, mas nunca conseguiu fazer a escritura, descobrindo mais tarde que as mesmas tinham sido hipotecadas pela empresa do antigo ciclista, no valor de cinco milhões de euros, de forma a financiar um alegado projecto. A empresa de Argentin acabaria por fechar e as propriedades ficaram para a Cassa di Risparmio, que detinha as hipotecas.

Moreno Argentin foi condenado a um ano de prisão de pensa suspensa num tribunal em Veneza e terá ainda de pagar 310 mil euros ao casal que foi enganado no caso. A defesa vai recorrer, segundo o Corriere del Veneto.

O italiano, agora com 55 anos, foi campeão do mundo em 1986, em Colorado Springs (EUA), venceu por quatro vezes a Liège-Bastogne-Liège, uma Volta a Flandres e um Giro di Lombardia. Mas destaque ainda para os triunfos em três edições da Flèche Wallone, duas etapas da Volta a França e 13 no Giro.

30 de outubro de 2016

Doping: Rui Carvalho e Alberto Gallego só podem regressar em 2019

Alberto Gallego foi imediatamente despedido
pela Caja Rural após o resultado do teste de  antidoping
Rui Carvalho era visto como um dos talentos emergentes do ciclismo nacional. Alberto Gallego tinha tido o mesmo estatuto, mas em Espanha, e ao serviço da Rádio Popular-Boavista confirmou as expectativas e preparava-se para se estrear na Caja Rural. Dois ciclistas de tremendo potencial e que agora vêem as suas carreiras talvez irremediavelmente arruinadas devido ao doping. Suspensos há vários meses, os ciclistas souberam agora que só poderão regressar à competição em 2019.

Ambos são jovens e terão tempo para ainda tentar voltar, mas quatro anos é muito tempo perdido na evolução que ambos necessitariam de ter para sonhar alto. Alberto Gallego foi o caso mais mediático. A 3 de Janeiro, ou seja, no terceiro dia de contrato com a Caja Rural, aquele que parecia ser um grande passo na sua carreira, tornou-se num gigantesco passo atrás. Num controlo surpresa, Gallego acusou estanozol, um esteróide anabolizante mais frequentemente utilizado por culturistas. O espanhol foi suspenso e a Caja Rural não hesitou: despediu o ciclista.

Numa carta aberta enviada ao site espanhol Biciciclismo, Gallego explicou na altura que não tinha tomado a substância nem de forma consciente, nem inadvertidamente. O espanhol falou com os médicos para saber que substância se tratava e confirmou que todos os suplementos que tomava não continham estazonol. "Para mim é óbvio que se não tomei propositadamente e se não está nos rótulos [dos suplementos], então eu sou uma vítima", escreveu Gallego, que referiu ser uma vítima de contaminação no laboratório.

A defesa não resultou e a suspensão determinada pela UCI é de três anos e nove meses, que começou a contar a 3 de Janeiro e termina a 25 de Outubro de 2019, ou seja, quando estiver a um mês de cumprir o seu 28º aniversário.

Já Rui Carvalho recebeu quatro anos de suspensão, isto é, até 17 de Julho de 2019, depois de um positivo num teste durante a Volta a Portugal do Futuro no ano passado, na qual venceu uma etapa. O teste antidoping detectou o uso de esteróides anabolizantes. O jovem, de 21 anos, era uma das referências no escalão de sub-23, tendo em 2015 somado vários resultados muito interessantes, mostrando-se cada vez mais como um bom trepador. Integrava ainda os trabalhos da selecção nacional.

Dois jovens ciclistas com o futuro em suspenso na modalidade. E já se sabe, mesmo que regressem e por mais que aleguem inocência, viverão sempre rodeados de um clima de desconfiança.

29 de outubro de 2016

Joaquim Rodríguez, os pontos, o dinheiro e a despedida que agora nunca será a ideal

Joaquim Rodríguez na apresentação da Bahrain-Merida, na Croácia
Joaquim Rodríguez admitiu que ficou um sabor amargo pela forma como se despediu do ciclismo. Queria que os Jogos Olímpicos fossem a sua última competição (foi quinto), mas a Katusha obrigou-o a competir em três corridas em Itália, incluindo no Giro di Lombardia, prova que venceu duas vezes. No entanto, "Purito" não terminou nenhuma e para o espanhol essa não é a forma ideal para acabar uma carreira como a dele. Entretanto, e depois de desmentir o seu agente, lá assinou pela Bahrain-Merida. Inicialmente o que foi noticiado era que Rodríguez iria competir em 2017, mas teria liberdade para escolher as corridas. Depois o contrato prolongar-se-ia por mais dois anos, mas então com "Purito" com um papel na equipa técnica. Agora há uma segunda versão. Rodríguez poderá não voltar à competição e ser o "rosto" da equipa, ou seja, num função mais de marketing. O espanhol diz que em Dezembro decide.

Curiosamente, em Dezembro já estará tudo definido quando a licenças World Tour, ainda que neste momento os pontos dos ciclistas já poderão não ter a importância de há alguns dias, pois a UCI terá chegado a acordo com a ASO e voltou atrás na decisão de cortar uma equipa no principal escalão. As 18 que se candidataram deverão receber a licença, se cumprirem os requisitos. Ou seja, em causa já não estarão os pontos dos ciclistas que poderiam deixar alguém - provavelmente a Dimension Data - de fora. E Rodríguez levou para a Bahrain-Merida 211.

Porém, para quem está preocupado por não ter terminado a carreira como queria e de uma forma mais "gloriosa", então Rodríguez deveria ponderar melhor toda esta sua atitude. Ponto um: se voltar a competir, mesmo que seja apenas em algumas corridas, será um desrespeito para a sua antiga equipa. Depois dos Jogos do Rio de Janeiro, "Purito" entrou em modo reforma, só voltando à força porque a Katusha achou, e bem, que se o ciclista continuava a receber (o contrato só acaba a 31 de Dezembro) então tinha que representar a formação até ao final da temporada. Isto, claro, numa altura em que já se falava que poderia afinal não abandonar e rumar ao conjunto do Médio Oriente.

Ponto dois: se não voltar a competir e ficar apenas como o "rosto" da Bahrain-Merida, fica a questão de como se pode ser o "rosto" de uma equipa nova, com a qual não teve nunca qualquer tipo de ligação... porque é nova. Então o "rosto" da Bahrain-Merida não é Vincenzo Nibali? O vencedor das três grandes voltas? O "rosto" é um ex-ciclista (partindo de princípio que não volta a correr) que representa a equipa por que razão? Se fosse o "rosto" da Katusha ainda se perceberia, afinal foram sete anos na formação russa.

Este tipo de papel é muito utilizado em equipas de futebol ou de basquetebol, por exemplo. No ciclismo é mais natural ver antigas glórias assumirem estas funções em determinadas competições.

Se ficou um sabor amargo por não ter terminado a carreira nos Jogos Olímpicos como queria, como se sentirá Rodríguez quando for recordado que no final da carreira foi para uma equipa para ter uma função que nem se sabe qual é?

Aos 37 anos, o ciclista diz que a equipa não o está a pressionar e que não sabe o que fazer, garantindo também que a mudança não se tratou de questões de financeiras. Para já, participou na apresentação aos meios de comunicação social - que decorreu na Croácia - daquela que deverá ser a primeira equipa do Médio Oriente no World Tour. "O que está claro é que se quiseres despedir-te bem, tens de estar a 100%", afirmou o espanhol à Maillot Mag.

Porém, depois do "abandono, mas afinal não abandono", do "vou competir, mas afinal posso não competir", infelizmente já não haverá uma boa despedida para Joaquim Rodríguez. Mesmo que esteja a 100%.



Este cadeado provoca vómitos a quem tentar roubar a bicicleta

Mudando um pouco os assuntos normalmente abordados neste blog, esta invenção era impossível ignorar. A paixão pelo ciclismo vai muito além de se gostar de ver e vibrar com os atletas, vai além de se praticar. São muitos os que apreciam pura e simplesmente a bicicleta e da utilizar como meio de transporte ou lazer e não apenas como um meio de fazer desporto. São estas diferentes formas de viver o ciclismo que inspira muitos a tentar torná-lo mais agradável e mais seguro. E quando se fala de segurança, então salienta-se como o aumento de utilizadores de bicicleta também vez com que aumentassem os roubos, situação comprovada em vários países. Têm surgido alguns cadeados originais, incluindo um que o selim é utilizado como forma de prender a bicicleta, permitindo um dois em um: segurança e não ter de andar com o selim atrás para evitar que seja roubado. Porém, a mais recente ideia é... diferente. E se ao tentar roubar os ladrões corressem o risco de ficar bastante mal dispostos? 

Daniel Idzkowski e Yves Perrenoud, de São Francisco (EUA), criaram o SkunkLock, que à primeira vista é idêntico a tantos outros cadeados. Porém, dentro tem um gás que é libertado quando o ladrão tenta forçar ou cortar o cadeado. Esse gás é suficientemente agressivo para provocar vómitos, o que poderá convencer o ladrão a desistir, ou assim esperam os inventores. Nos EUA este gás é legal, mas não é especificado se o mesmo acontece noutros países.

Ainda assim o SkunkLock (nome inspirado no animal cangambá que expele um líquido com cheiro horrível quando se sente ameaçado) está a chamar a atenção. Idzkowski explica no site Indiegogo - no qual está em vigor uma campanha de crowdfunding que já ultrapassou o 20 mil dólares pedidos - que a ideia surgiu depois de ele e os amigos terem ficado sem umas bicicletas. É que por mais seguros e resistentes que parecem os cadeados, muitos deles são quebrados em um minuto ou menos, lê-se no site.

É mesmo caso para dizer que os donos das bicicletas arranjaram forma de contra-atacar os ladrões e, para já, é possível adquirir um destes cadeados por 99 dólares (cerca de 90 euros) através da internet.

28 de outubro de 2016

Quintana surpreende e a 100ª edição da Volta a Itália poderá mesmo ter as grandes estrelas do momento

(Fotografia: Team Sky)
Por esta não se esperava. Nairo Quintana está focado no "sueño amarillo", mas afinal não estará tão obcecado pelo Tour como se pensava. O percurso da 100ª edição da Volta a Itália está a chamar muito a atenção dos principais ciclistas, que ficaram agradados com uma rota que tem tanto de difícil, como de espectacular. O objectivo da organização da prova era precisamente que os grandes nomes se sentissem atraídos e enquanto Chris Froome lá vai variando entre dizer que gosta muito do percurso do Giro, mas que o Tour é o objectivo, mantendo assim o suspense, Quintana surpreendeu (e de que maneira) ao admitir que está a pensar atacar o Giro e o Tour em 2017. Ainda não é certo, mas já deve ser o suficiente para deixar o director da Volta a Itália, Mauro Vegni, com um enorme sorriso e a preparar o champanhe!

"Fazer o Tour e a Vuelta [no mesmo ano] afinal não foi assim tão mau. Então, se calhar, podemos tentar o Giro e o Tour. Se não tentarmos, nunca saberemos", afirmou Quintana durante a conferência de imprensa da Movistar que lançou a temporada de 2017. O director desportivo, Eusebio Unzué está a preparar o próximo ano e confirmou que a hipótese é real, mas que Quintana pondera também repetir a dupla Tour-Vuelta. Porém, o facto de ser a 100ª edição e perante um percurso tão atractivo, o colombiano poderá mesmo concretizar a surpresa e regressar à competição que venceu em 2014.

Quintana venceu o Giro em 2014 (Fotografia: Team Sky)
Marco Pantani foi o último ciclista a conseguir conquistar o Giro e o Tour no mesmo ano. Desde então, vários tentaram, sem sucesso. Alberto Contador foi o mais recente. Venceu em Itália, mas em França não conseguiu entrar na luta pela vitória, terminando no quinto lugar. Porém, Nairo Quintana tem desde logo uma vantagem: é mais novo. Contador tentou aos 32 anos e já depois da suspensão por doping - nunca mais foi o mesmo desde então - e Quintana terá 27. Claro que a idade não é o factor mais determinante. Este ano ficou demonstrado que o colombiano tem uma boa capacidade de recuperação num curto espaço de tempo. Apesar de não ter estado ao seu melhor na Volta a França, ainda assim foi terceiro classificado e depois venceu a Vuelta com autoridade.

Eusebio Unzué salientou que o Tour será o principal objectivo de Nairo Quintana (Alejandro Valverde regressará ao seu habitual calendário de Tour e Vuelta), contudo, teceu elogios à Volta a Itália: "Adoraria ver o Giro com todas as grandes estrelas. O Giro é uma corrida espectacular. Se todos os ciclistas de topo lá estivessem seria muito bom para o nosso desporto."

Aumenta assim a expectativa sobre quem estará na 100ª edição da Volta a Itália. Fabio Aru abdicou do Tour para se concentrar no Giro e depois recuperar para a Vuelta. Vincenzo Nibali também estará na "sua" prova e desafiou Chris Froome a regressar ao Giro. O britânico competiu em 2010, mas foi expulso por se ter agarrado a uma moto numa etapa. Uma das questões de Froome é que se apostasse no Giro, poderia chegar ao Tour em desvantagem física perante os adversários. Porém, se Quintana confirmar a presença, poderá muito bem influenciar a decisão do britânico.

Thibaut Pinot também quer tentar fazer o Giro e o Tour em 2017, Romain Bardet está tentado a fazer o mesmo. Tom Dumoulin parece estar inclinado para apostar forte no Giro. Para já, só Alberto Contador mantém-se fiel ao plano de fazer tudo para vencer a Volta a França. No entanto, a Trek-Segafredo poderá pensar em colocar Bauke Mollema como líder no Giro.

Se a este lote se juntar as mais recentes estrelas como Steven Kruijswijk, Johan Esteban Chaves e os irmãos Yates (ou pelo menos um deles)... poderemos mesmo ter uma 100ª edição do Giro memorável. E seria também muito bom se Rui Costa ponderasse essa hipótese... Esta autêntica bomba que Quintana lançou poderá ser o repto que a organização da Volta a Itália tanto procurava para ter uma 100ª edição com os maiores nomes do ciclismo actual.

27 de outubro de 2016

"O Boavista é a melhor equipa para relançar a minha carreira. Vou ter mais liberdade"

Domingos Gonçalves é a mais recente contratação de uma Rádio Popular-Boavista que está a apostar em ciclistas de ataque como Filipe Cardoso, João Benta e o jovem Luís Gomes, não esquecendo Rui Sousa, que vai continuar por mais um ano. "É uma equipa atacante e de muita qualidade. Todos podem ganhar corridas", salientou Domingos Gonçalves ao Volta ao Ciclismo, admitindo que um dos pormenores que o levou a assinar pela formação axadrezada - que representou em 2012 e 2013 - foi precisamente o conjunto de atletas que vão compor a equipa em 2017. Depois de uma época algo frustrante na Caja Rural, o ciclista de Barcelos procurava uma equipa onde pudesse ter mais liberdade e discutir corridas. Gostaria de ter ficado pelo estrangeiro, mas perante os convites que recebeu, viu na Rádio Popular-Boavista a melhor escolha para relançar a carreira.

O trajecto de Domingos Gonçalves no ciclismo não tem sido pautado por muita estabilidade. Em 2014 foi para a La Pomme Marseille, onde estava o irmão gémeo. Porém, no ano seguinte, enquanto José Gonçalves seguiu para a Caja Rural, Domingos regressou a Portugal, assinando pela Efapel. Em 2016 voltou a estar ao lado do irmão, mas agora haverá uma nova separação. José vai para o World Tour, para representar a Katusha. Para Domingos, o Boavista até poderá ser visto como um passo atrás na carreira, contudo, talvez "para dar dois à frente". "Mas a vida não é assim tão fácil..." O ciclista não quer pensar se poderá voltar a competir numa equipa estrangeira. Aos 27 anos, Domingos Gonçalves está concentrado em aproveitar o presente: "Vou focar-me no Boavista. Não quero saber se para o ano vou para o estrangeiro ou não. Não vale a pena pensar no futuro. É melhor aproveitar a oportunidade que tenho."


"Este ano na Caja Rural foi o meu pior ano na Volta a Portugal e quero estar muito melhor"

Os adeptos do Boavista podem ficar descansados, pois vão ter um ciclista que quererá vencer: "Vou tentar ganhar algumas corridas, tenho liberdade para isso." E como não podia deixar de ser, a Volta a Portugal será o grande objectivo. "Espero estar bem. Este ano na Caja Rural foi o meu pior ano na Volta a Portugal e quero estar muito melhor", referiu. Domingos Gonçalves realçou também pretende em 2017 "tentar ser regular durante toda a temporada, ter o mesmo nível e não andar a ter muitos picos de forma".

2016 não foi uma boa temporada

Há algum tempo que Domingos Gonçalves sabia que não continuaria na equipa espanhola. "Esta época não correu muito bem em termos de resultados, mas aquilo que a equipa me pediu cumpri até final. Foi uma temporada que não deu para me segurar na Caja Rural." O ciclista afirmou que não fez mais porque os responsáveis não o colocaram em posição de tentar vencer. "Só tinha de estar ali... a ajudar os colegas, nunca me deixaram ter espaço para ganhar."

A desilusão era tal que se chegou a ouvir falar que Domingos poderia terminar prematuramente a sua carreira. "Era um boato", disse entre risos. "Eu quero mais. Eu podia ter dado mais esta temporada, mas foi uma época em que andei mais descansado, relaxado e nas corridas em que me apliquei mais as coisas não saíram..."

Para o atleta era importante encontrar uma equipa onde pudesse "andar mais do que aquilo" que andou em 2016. "Na W52-FC Porto e no Sporting-Tavira não dava para entrar por causa da média de idades e o Boavista é uma das melhores equipas em Portugal... É a melhor para relançar a minha carreira. Vou ter mais liberdade", frisou.


"Eu não me importava de ser gregário. O problema às vezes é que se dá valor àqueles que ganham e aos que trabalham não"

Afirmou não estar desiludido com a Caja Rural, mas ainda assim deixou um desabafo: "Eu não me importava de ser gregário. O problema às vezes é que se dá valor àqueles que ganham e aos que trabalham não. Chega-se ao final da época e é capaz, se for preciso, não se renovar o contrato ou baixar o salário. Aqueles que ganham têm sempre a hipótese, mas eles têm quem trabalhe para eles."

O salto para o World Tour do irmão
Os gémeos Gonçalves vão voltar a estar separados

José Gonçalves teve uma época mais positiva, marcada pela vitória na Volta à Turquia. Um resultado de destaque, mas que se junta a muitas boas exibições que já o tinham colocado na mira de grandes equipas. "Ele podia ter saído mais cedo para o World Tour. Esteve mais um ano na Caja Rural, onde tinha mais liberdade para fazer o que quisesse. Mas não vamos estar a prender bons ciclistas no escalão Profissional Continental", explicou Domingos, que acrescentou que em Portugal estão ciclistas lusos com "qualidade para estar lá fora".

O objectivo internacional da Rádio Popular-Boavista

Rui Sousa concordou em prolongar a carreira mais um ano e manteve-se na equipa, tal como David Rodrigues, Ricardo Vale, Victor Etxeberria e Pablo Guerrero. Os axadrezados podem ter perdido Daniel Silva (terceiro classificado na Volta a Portugal), César Fonte e Frederico Figueiredo, mas foram à procura de reforços de luxo. A contratação de Filipe Cardoso animou os adeptos e o ciclista até tem um discurso idêntico ao de Domingos Gonçalves: ter mais liberdade foi essencial para assinar contrato e deixar a Efapel. João Benta vai regressar depois de ter evoluído bastante no Louletano, Luís Gomes é mais uma jovem aposta que vem da Liberty Seguros-Carglass. Daniel Sanchez (Extremadura) é também uma das novas caras para 2017.

O director desportivo da Rádio Popular-Boavista deixa elogios a Domingos Gonçalves e fala ainda da ambição da equipa. "O Domingos é um ciclista possante e com imensas qualidades. É um corredor de ataque e que disputa cada prova e cada classificação. Na Rádio Popurlar-Boavista terá liberdade para alcançar os seus objectivos e ser igualmente útil ao serviço do colectivo. Ficamos satisfeitos por renovar a sua ligação ao clube em especial numa época com esperada presença em novas competições internacionais", afirmou José Santos, numa declaração escrita na página de Facebook da equipa.

»»Filipe Cardoso: "Achei que deveria mudar e procurar uma equipa onde tivesse mais liberdade. O Boavista foi a melhor opção"««

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Antigo vencedor da Volta a Espanha foi preso por tentativa de assalto. E já é a quarta detenção

(Fotografia: Direitos Reservados)
Aitor González teve uma carreira fugaz. Prometeu muito, mas um escândalo de doping arruinou-a. Entre 2002 e 2004 venceu uma Volta a Espanha, etapas na Vuelta, Giro e Tour e tudo antes dos 30 anos. Espanha parecia que teria mais um grande voltista, mas quando rebentou o escândalo a chamada Operação Puerto, González foi relacionado com o médico no centro da polémica, Eufemiano Fuentes. Disse que só recebia vitaminas e defendeu o médico, mas em 2006 acabou suspenso por dois anos após um teste antidoping positivo. Afirmou que tinha ingerido suplementos alimentares contaminados. De nada lhe valeu. Nunca mais voltou ao ciclismo.

A sua vida entrou uma espiral descendente e Aitor González só voltaria a ser notícia pelos problemas com a lei. O mais recente foi divulgado pelo site espanhol Diario Información: o ex-ciclista foi detido, suspeito de uma tentativa de assalto a uma loja de telemóveis. Aitor González terá alegado inocência, explicando que o vidro foi partido por uma pessoa que tinha conhecido durante a noite numa festa. Foi libertado sob fiança.

A primeira detenção aconteceu em 2007 quando foi apanhado a conduzir alcoolizado. Mais tarde voltou a ser preso acusado de ter contratado três pessoas para agredir uma que lhe devia dinheiro. A terceira detenção esteve relacionada com um esquema financeiro ilegal.

Aitor González tem hoje 41 anos. Ao serviço da Kelme-Costa Blanca despontou como um ciclista de grande talento que confirmou primeiro na equipa espanhola e depois na Fassa Bortolo. A sua última equipa foi a Euskatel-Euskadi.

26 de outubro de 2016

Imbróglio legal assusta UCI. 2017 deverá contar com 18 equipas e assim "salvar" a Dimension Data

Dimension Data poderá respirar de alívio. Deverá continuar no World Tour
Questão resolvida? Tudo indica que sim e o resultado não surpreende. A UCI vai recuar na decisão de diminuir as equipas World Tour de 18 para 17, permitindo assim que todas as formações que pediram uma licença para esse nível a recebam, se cumprirem todos os requisitos. É o suspirar de alívio para a Dimension Data (que subiu este ano) que era o elo mais fraco depois de ter terminado em último lugar no ranking e com as novas candidatas Bahrain-Merida e Bora-Hansgrohe a contratarem ciclistas com muitos pontos, que lhes permitiria ocupar os lugares deixados pela saída da Tinkoff e IAM.

A decisão de reduzir o número de equipas não cairá por completo, segundo o site Cycling News, mantendo-se a intenção que em 2019 sejam 16 as formações no World Tour, passando a existir um sistema de promoção e relegação. Foi um dos pontos acordados com a ASO - que organiza algumas das mais importantes provas, como a Volta a França ou Paris-Roubaix - e que permitiu desbloquear um longo braço de ferro, num altura em que a ASO ameaçava retirar as suas competições do World Tour.

Esta mudança de opinião da UCI teve, naturalmente, o aval da ASO, que sempre insistiu num pelotão com menos equipas, o que lhe permitiria ter mais escolha nos convites a atribuir para as corridas. Terá sido decisivo o acordo de dois milhões de euros entre a ASO e a empresa Dimension Data, responsável pela apresentação em tempo real de dados durante as corrida. Ora a equipa que é patrocinada ir parar ao escalão Profissional Continental poderia "azedar" a relação.

Não há ainda confirmação oficial desta informação. Porém, perante as perspectivas de um autêntico imbróglio legal, a UCI terá agido de forma a evitar que o arranque da temporada em 2017 fosse afectado. Se não o tivesse feito poderia enfrentar uma acção legal da Dimension Data, que defende que com a saída da Tinkoff e IAM, a sua posição no ranking final é o 16º lugar, logo uma garantia para receber a licença World Tour. Perante uns regulamentos dúbios, o Tribunal Arbitral do Desporto arriscaria ter ainda mais trabalho, pois se a Dimension Data conseguisse que lhe fosse dada razão, então seria a Bahrain-Merida e a Bora-Hansgrohe que iriam recorrer à justiça, pois a sua leitura dos regulamentos é diferente, defendendo que os seus ciclistas somam mais pontos que os da equipa sul-africana.

Um problema evitado, ou pelo menos adiado por dois anos já que as novas licenças terão precisamente essa duração. As reformas da UCI provocaram desagrado e a Associação Internacional de Equipas de Ciclismo Profissionais ameaçou com... procedimentos legais. Além da questão do número de equipas, a UCI terá cedido noutro ponto: as equipas World Tour não serão obrigadas a participar nos dez novos eventos do calendário.

Em Novembro a UCI irá decidir os novos procedimentos e anunciar como e com que equipas será a época em 2017. No entanto, a atitude de subserviência da UCI perante a ASO está a preocupar cada vez mais a Associação Internacional de Equipas de Ciclismo Profissionais que vai lutar contra o sistema de promoção e relegação e certamente que a redução para 16 equipas será tema para grande polémica se se repetir a situação deste ano, com mais candidatos do que licenças disponíveis.

Se se mantiver esta regra, uma das preocupações - e que foi recentemente realçada por Mark Cavendish, ciclista da Dimension Data - é que as equipas comecem a preocupar-se mais em somar pontos do que procurar vitórias, isto porque o sistema actual atribui mais pontos a determinadas posições nas classificações gerais, por exemplo, do que a um triunfo numa etapa.

Mais uma novela do ciclismo com alguns capítulos ainda por escrever.



25 de outubro de 2016

"Receber o Dragão de Ouro foi um enorme orgulho porque vou ficar com o meu nome gravado na história de um grande clube"

(Fotografia: Facebook W52-FC Porto)
Foi o culminar de uma temporada inesperada para Rui Vinhas. Depois de surpreender ao vencer a Volta a Portugal, o ciclista recebeu esta segunda-feira o Dragão de Ouro de Atleta do Ano. "Foi um reconhecimento de todo o meu trabalho e da equipa", salientou Rui Vinhas ao Volta ao Ciclismo. Mas mais do que o reconhecimento, o ciclista confessa-se emocionado por ficar na história do FC Porto. "Receber o Dragão de Ouro foi um enorme orgulho porque vou ficar com o meu nome na história de um grande clube", admitiu.

O prémio tem ainda mais notoriedade tendo em conta que 2016 marcou o regresso do FC Porto ao ciclismo, com a equipa a ser considerada o Projecto do Ano na gala de ontem. Rui Vinhas recordou quando no início da época a equipa visitou o museu do clube: "Está lá a parte dedicada ao ciclismo. Longe de mim de pensar que ia lá ter o meu nome gravado!" Não esconde ser algo que mexe com ele emocionalmente e agora quer regressar ao museu para rever a exposição, já com a sua camisola de vencedor da Volta a Portugal. "Daqui a uns anos ir lá e rever todas essas coisas... será algo muito emocional."


"Visto que fui o vencedor da última edição da Volta a Portugal, na próxima tentarei uma boa classificação. É evidente que o líder é o Gustavo Veloso, mas tudo pode acontecer... Este ano foi a prova disso mesmo"

Se no início do ano lhe tivessem perguntado se poderia ter um 2016 assim, Rui Vinhas afirmou que teria logo descartado tal hipótese, pois a sua função seria trabalhar para Gustavo Veloso tentar vencer a terceira Volta a Portugal consecutiva. A única coisa que sabia era que ia ser pai, mas o ano acabou por ser marcante tanto a nível pessoal como profissional. "O ano decorreu de forma fantástica. Consegui este feito e estou bastante contente", disse, acrescentando que sempre foi ambicioso e que agora é cada vez mais, apesar de nunca ter imaginado em Janeiro ser possível alcançar o que conseguiu em Agosto, quando conquistou a Volta a Portugal.

A "acertar os últimos pormenores" para renovar contrato com a W52-FC Porto, Rui Vinhas realçou que é nesta equipa que quer ficar. "Tenho bastantes amigos e é um grupo no qual enquadro-me bem. Faz o meu estilo." Já começou a dar as primeiras pedaladas da pré-época e explicou que em 2017 quer conseguir "novas vitórias" e pensa na Volta a Portugal: "Sei que temos um líder, mas vou com ideia de fazer uma boa corrida. Visto que fui o vencedor da última edição da Volta a Portugal, na próxima tentarei uma boa classificação. É evidente que o líder é o Gustavo Veloso, mas tudo pode acontecer... Este ano foi prova disso mesmo."


Giro: um percurso para o espectáculo e para a incerteza até final. Digno de uma 100ª edição

Um novo logotipo para celebrar uma edição especial
Pedia-se um percurso inesquecível. Um percurso digno de tornar uma 100ª edição memorável, como o número especial assim o exige. E os organizadores da Volta a Itália não desiludiram. A apresentação foi esta terça-feira, mas os perfis das etapas acabaram por ser revelados mais cedo, supostamente sem que estivesse previsto. Mas isso agora pouco importa. Já não valeria a pena andar com secretismos, pois afinal saber que o Mortirolo e o Stelvio fazem parte do percurso, assim como outras montanhas míticas, era o que mais se desejava saber, num Giro difícil e para os grandes trepadores (assim como bons contra-relogistas), mas que terá momentos para os sprinters.

Nesta 100ª edição, o Giro irá passar por 21 das 25 regiões italianas, começando na Sardenha, terra de Fabio Aru (Astana). O italiano mostrou-se satisfeito por ter a possibilidade de iniciar a tentativa de ganhar o seu primeiro Giro em casa. Aru, que se estreou na Volta a França este ano, já assumiu que em 2017 o Giro e a Vuelta (que venceu em 2015) são os objectivos. Porém, o seu rival também terá a possibilidade de pedalar onde nasceu, pois o percurso passa pela Sicília de Vincenzo Nibali. Camisola rosa de 2016 e 2013, o "Tubarão", como é conhecido, vai tentar a terceira vitória, desta feita ao serviço da nova equipa da Bahrain-Merida.

O percurso é para os trepadores, mas haverá etapas para os sprinters, principalmente nos primeiros dias. Poderá acontecer como no ano passado que a meio do Giro acabam por começar a abandonar dada as dificuldades que não são de todo para as características dos homens mais rápidos do pelotão. Mas falemos dos contra-relógios. Temos um na 10ª etapa de 39,2 quilómetros, praticamente plano e em 2017 não há etapa de consagração (algo que não é inédito no Giro), pois mais um contra-relógio individual poderá decidir o vencedor no último dia. São 28 quilómetros a terminar em Milão, mais uma vez planos. Desta feita não há crono-escalada e o contra-relógio por equipas volta a não figurar nesta competição de três semanas.

Mesmo sem falar da montanha, percebe-se porque razão Chris Froome reagiu muito bem ao percurso da Volta a Itália, o que terá deixado o director da corrida, Mauro Vegni, muito satisfeito. Claro que elogiar é uma coisa, estar no Giro será outra, mas o britânico lá vai deixando umas dicas que não é impossível... Falta saber se a Sky deixará o seu líder arriscar fazer o Giro e o Tour no mesmo ano. Recorde-se que desde 1998 que ninguém consegue o feito de vencer as duas corridas no mesmo ano, então alcançado por Marco Pantani.

Mas regressando ao percurso, logo na quarta etapa teremos a primeira das cinco chegadas em alto, no Etna. Porém, algumas das etapas de montanha terminam com descidas, algo sempre ao jeito de Vincenzo Nibali. Sete etapas ultrapassam os 200 quilómetros, uma outra tem 199, mas depois há tiradas curtas, mas duras. Porém, recordando um pouco o que aconteceu este ano, as Dolomitas voltam a estar no centro das atenções. Vão receber a etapa rainha, que começa em Moena e termina em Ortisei/St. Ulrich. Serão 137 quilómetros, com cinco subidas, três das quais acima dos dois mil metros de altitude.




A última semana será diabólica, pois na 16ª etapa, por exemplo, serão 227 quilómetros com este perfil:




E até ao contra-relógio final não haverá descanso, pelo que a expectativa é grande e o desafio aliciante para os ciclistas. O percurso é entusiasmante, ao contrário da Volta a França, que apesar de algumas novidades, como a aposta em algumas subidas curtas, mas difíceis, a verdade é que o Tour é um pouco mais conservador. O Giro mantém o seu perfil de dureza e será quase impensável não se assistir novamente a um grande espectáculo.

Esta Volta a Itália fará também algumas homenagens ao passar por locais que estão ligados a grandes nomes do ciclismo, como a aldeia onde nasceu e onde está sepultado Fausto Coppi, ou então a terra de Gino Bartali, ou o local de uma das grandes exibições de Marco Pantani, entre outros exemplos.

Falta saber se o percurso do Giro irá convencer os grandes nomes da modalidade actualmente. A organização ambicionava ter Chris Froome, Alberto Contador e Nairo Quintana. Os últimos dois estão obcecados pela Volta a França, o britânico... vamos ver. De recordar que Froome venceu a 100ª edição do Tour e seria algo histórico e único se vencesse a 100ª edição do Giro.


Giro d'Italia 2017 - Il Percorso (The Route) por giroditalia


Alejandro Valverde é possível que volte depois do pódio deste ano, Steven Kruijswijk - que deixou a vitória fugir em 2016 devido a uma queda - será um nome a ter em conta. Daniel Martin ameaça fazer uma época diferente, o que poderá significar trocar o Tour pelo Giro. Há dúvidas quanto aos planos da Orica-BikeExchange. Depois do segundo lugar de Johan Esteban Chaves no Giro e o terceiro na Vuelta, não está definido se a equipa australiana vai apostar forte na Volta a França, lançando o colombiano e os irmãos Yates, ou se divide as "tropas" e tentará ter uma bom conjunto de ciclistas em Itália. Também falta saber se Ilnur Zakarin regressará à Volta à Itália, ou se agora, sem Joaquim Rodríguez na Katusha, o russo poderá ser resguardado para atacar o Tour.

E se as palavras de Froome terão deixado Mauro Vegni a pensar que poderá concretizar pelo menos um dos seus objectivos, já a FDJ e AG2R não estiveram nada de acordo com as ideias de Thibaut Pinot e Romain Bardet em estar no Giro. As equipas francesas querem que os seus líderes franceses estejam na mais importante competição do ano... que é em França!

Muitas dúvidas e ainda se terá de esperar um pouco para serem dissipadas. Mas que este percurso pede a presença dos melhores, isso é uma verdade (veja aqui todas o perfil de todas as etapas).

»»Froome, Contador e Quintana no Giro? O ambicioso objectivo para a 100ª edição««

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24 de outubro de 2016

"Achei que deveria mudar e procurar uma equipa onde tivesse mais liberdade. O Boavista foi a melhor opção"

Uma das últimas fotografias como ciclista da Efapel. Em 2017 as cores serão outras
É uma das transferências do ano no ciclismo nacional. Depois de seis anos na Efapel, Filipe Cardoso considerou que estava na altura de mudar e, com alguma influência do amigo Rui Sousa, optou por assinar pela Rádio Popular-Boavista, onde espera ter outro tipo de liberdade nas corridas. "Não prometi vitórias ao Boavista, nem o Boavista me exigiu nada. A única coisa que lhes disse foi que continuaria a ser o ciclista que fui nos últimos anos e eles estavam precisamente interessados nesse Filipe", salientou ao Volta ao Ciclismo. Sendo um dos ciclistas mais acarinhados do pelotão, a sua mudança foi muito bem recebida pelo adeptos axadrezados e a equipa terá agora dois dos ciclistas que muito gostam de mexer nas corridas. "O Rui tem uma forma de correr de ataque e eu também não gosto muito de ir parado na corrida. Portanto, é uma equipa que tem tudo para dar espectáculo."

Além de Rui Sousa - que adiou a "reforma" - e Filipe Cardoso, a Rádio Popular-Boavista garantiu o regresso de João Benta e tem assegurado um conjunto de jovens interessantes. "Parece-me ser uma equipa capaz de estar na luta em praticamente todas as corridas", referiu Filipe Cardoso. Mas afinal, o que o fez terminar uma longa relação com a Efapel? "Foi um conjunto de factores. O que acontece nas equipas, na maneira como eu vejo as coisas, ficam nas equipas. Ficas as coisas boas e as menos boas. Ao fim de seis anos achei simplesmente a proposta do Boavista mais aliciante, não só os números, mas também as condições e a forma como poderei gerir a minha época", explicou. "Achei que deveria mudar e procurar uma equipa onde tivesse alguma liberdade. O Boavista é a melhor opção", acrescentou.

Aos 32 anos, Filipe Cardoso inicia assim uma nova fase na carreira e com uma grande ambição, pois espera que essa liberdade se traduza em estar em condições para lutar por mais vitórias e, claro, a pensar na Volta a Portugal. "Uma equipa na Volta a Portugal que tem um líder forte acaba por estar influenciada por isso. Este ano procurei uma com líderes com menos responsabilidade na Volta e, por consequência, a equipa tem menos trabalho, digamos assim. Mas isto é tudo teoria. Pode acontecer chegar à Volta e um ciclista do Boavista ser líder logo nos primeiros dias. Se tiver de trabalhar, isso não será problema nenhum", afirmou.

"Foram três quedas em duas etapas e uma delas violentas. Acabei por partir costelas, deslocar um ombro, tive de ser cozido em muitas partes do corpo, tive um derrame na coxa e 25 dias de cama"

E Filipe Cardoso tem "contas a ajustar" com a Volta a Portugal. A de este ano é descrita pelo ciclista como "dolorosa" e eis as razões: "Foram três quedas em duas etapas e uma delas violenta. Acabei por partir costelas, deslocar um ombro, tive de ser cozido em muitas partes do corpo, tive um derrame na coxa e 25 dias de cama." Escusado será dizer, que a Volta a Portugal não correu nada como o esperado, mas "o ciclismo é assim", disse Filipe Cardoso, que, no entanto, realça que a época não foi toda má. "O meu objectivo inicial era ganhar uma corrida antes da Volta. Ganhei uma etapa no [Grande Prémio] Abimota e a geral, portanto essa parte ficou arrumada. A partir daí a concentração e os objectivos eram apenas a Volta a Portugal. Penso que estava bem fisicamente, mas depois aconteceu o que se sabe..."

A relação com as redes sociais e os seus fãs

Filipe Cardoso é dos ciclistas portugueses mais activos nas redes sociais. Partilha vários momentos da sua vida e, por exemplo, a longa recuperação depois das quedas na Volta a Portugal, foi mostrada com vários pormenores e também com um toque de humor. Porém, o ciclista disse que não o faz como uma forma de gerir a sua imagem: "O que faço não é para ter esse retorno. Aquilo que eu coloco nas redes sociais ou a maneira como lido com as pessoas que gostam de ciclismo, é a forma como eu, como amante da modalidade, iria gostar de ver, gostar de saber. O ciclismo sem o público não é nada."

"É mesmo muito bom receber esse apoio. Se não for por isso também não faria sentido andar feito maluco a fazer corridas de bicicleta!"

Admitiu que nem sabe quantas pessoas o seguem no Facebook. São mais de 16 mil. "A minha vida pessoal é uma coisa e a minha vida de atleta outra. Eu vou partilhando o que posso. Mas, sinceramente, a minha vida pessoal e de atleta acabam por se fundir e eu sou assim!" Filipe releva um grande respeito pelos adeptos que pelas estradas do país o apoiam intensamente e até não hesitou em dizer: "É mesmo muito bom receber esse apoio. Se não for por isso também não faria sentido andar feito maluco a fazer corridas de bicicleta!" A forma que encontra para retribuir esse apoio é "dar o máximo de atenção que possa e retribuir aquilo" que lhe dão na estrada.

Não esquece um metro da vitória na Senhora da Graça

"Vencer na Volta a Portugal é inesquecível. Vencer numa etapa mítica é ainda mais." Filipe Cardoso não esquece a vitória de 2015 na Senhora da Graça. Uma tirada para a história e que representa em muito quem é o ciclista. Fez mais de 30 quilómetros sozinho e aguentou até à meta, já com a concorrência (um deles o colega Joni Brandão) bem próxima. "Claro que me lembro perfeitamente desse dia... de cada metro que foi decisivo e do que sofri. Lembro-me dos últimos 30/40 quilómetros em que fui sozinho... lembro-me perfeitamente de todo o filme desse dia..."

O amigo Rui Sousa

Quando se tornou profissional, Filipe Cardoso começou ao lado de Rui Sousa, foram colegas de equipa, colegas de quarto e tornaram-se amigos. Entre encontros e desencontros em algumas formações, voltam agora a estar juntos na Rádio Popular-Boavista. "Uma grande parte de eu ter assinado pela equipa foi devido a algumas conversas que tive com o meu amigo Rui Sousa. Ele fez um pressing muito grande para eu ir para o Boavista e explicou-me como as coisas funcionam lá. Teve peso na minha decisão", confessou.

"Só acredito que é o último ano [do Rui Sousa] quando ele realmente deixar"

Filipe Cardoso começou a carreira ao lado de Rui Sousa e agora Rui Sousa pode acabar a sua ao lado de Filipe Cardoso, depois de ter adiado a retirada que tinha planeado para este ano. "Só acredito que é o último ano quando ele realmente deixar. Por isso, vamos esperar pela Volta a Portugal, pelo fim da época para saber, qual será a opção dele."

»»Rui Sousa: "Desde o início da Volta a Portugal que as pessoas me diziam 'mais um ano, mais um ano'"««

Quis festejar a vitória para as câmaras e provocou uma cambalhota a outro ciclista

Max Walscheid tinha acabado de vencer a sua primeira corrida. Por isso, é natural que o ciclista da Giant-Alpecin quisesse mostrar-se na televisão. Era, afinal, o seu primeiro momento de glória como profissional. Só que distraiu-se e acabou por provocar uma aparatosa queda. O insólito aconteceu na Volta a Hainan, na China e foi filmado.

A "vítima" foi Matej Mohoric, da Lampre-Merida. O esloveno ia a passar tranquilamente quando ficou sem espaço e deu uma cambalhota. Walschied - campeão do mundo de sub-23 em 2012 e 2013 - pareceu um pouco atrapalhado com o que aconteceu, mas acabou por se dirigir a Mohoric e terá ficado tudo bem entre os dois, além de parecer que, apesar do aparato, não houve males maiores (fisicamente) para o esloveno.

O melhor é ver as imagens e esperemos que Walscheid se lembre da próxima vez que tem ciclistas a passar por ele antes de tentar exibir-se para as câmaras!

23 de outubro de 2016

Queria pedalar um milhão de milhas na sua vida. Ficou paraplégico a 300 mil do objectivo, mas não vai desistir

(Fotografia: www.dannychew.com)
Danny Chew vive para o ciclismo. Em criança estabeleceu o objectivo de pedalar um milhão de milhas durante a sua vida (1.609.344 de quilómetros) e desde então que basicamente tudo o que faz é para cumprir a marca que estabeleceu. Não vive do ciclismo. Aliás, em vários textos lê-se que nem tem emprego fixo, ganhando um dólar aqui e acolá. Para Danny Chew tudo o que importa é pedalar e pode não ser um ciclista de renome, mas ganhou algumas das mais difíceis provas de endurance nos Estados Unidos. Aos 54 anos, Danny Chew viu a vida pregar-lhe uma partida ao fazer aquilo que mais gosta: uma queda durante o segundo dia de uma semana que queria fazer mil milhas, deixou-o paraplégico. Mas o americano não se deixa abater e enquanto cumpre o seu intenso programa de recuperação para aprender a trabalhar com a parte superior do corpo (está paralisado do peito para baixo), Chew já avisou amigos e famílias: se não pode concluir o seu objectivo a pedalar, fá-lo-á numa bicicleta movida pelas mãos.

O acidente aconteceu a 4 de Setembro. Danny Chew perdeu o controlo da bicicleta, não se sabe porquê, e caiu numa vala. Estava acompanhado por uma amiga, Cassie Schumacher que chamou de imediato a emergência médica. Porém, dias depois chegou a má notícia. Os danos na coluna são demasiado graves. Os médicos dizem que Chew não voltará a andar. Inicialmente, o americano esteve ligado a um respirador, mas a família e amigos já confirmaram que já respira por ele próprio e apesar do momento difícil em ter de aceitar que não voltará a andar na sua bicicleta, Chew tem demonstrado uma enorme força de vontade para concluir as cerca de 300 mil milhas que lhe faltam (482 803,2 quilómetros).

Natural de Pittsburgh, Danny Chew vive com a mãe de 84 anos, que sempre apoiou o seu estilo de vida, segundo se lê em vários textos que ao longo dos anos foram escritos sobre o ciclista. Sim, porque Chew pode não ter a fama que muitos ciclistas têm, no entanto, são muitos os que o querem conhecer, muitos os que ambicionavam pedalar ao seu lado. Em 1983 criou com cinco amigos a corrida "Dirty Dozen", na qual se sobe 13 das mais difíceis subidas locais, incluindo a que dizem ser a mais inclinada nos Estados Unidos (há quem diga do mundo): 37%. A tradição sempre foi Danny usar um apito para dar início à prova.

"Danny vive para andar na sua bicicleta. Ele não tem um emprego das 9 às 5, ele não tem filhos, nem é casado", escreveu um sobrinho numa plataforma de crowdfunding, que se destina a angariar dinheiro para ajudar Chew fazer frente às despesas médicas, e não só, que começam a acumular. "Danny é uma grande inspiração para muitas pessoas e para mim. O meu tio motivou-me para cumprir grandes objectivos e inspira-me em tudo o que faço na minha vida", acrescentou.

No site You Caring é possível fazer doações e ir acompanhando a recuperação de Danny Chew. No último texto colocado lê-se que será necessário realizar obras na casa de Danny, para a adaptar às suas novas necessidades. Refere ainda a esperança que o ciclista tem em cumprir o que falta do seu objectivo numa bicicleta movida pelas mãos, ainda que por agora tenha de cumprir um rigoroso calendário de recuperação. As mensagens de apoio que tem recebido têm sido importantes para o seu estado de espírito.

Danny Chew nunca procurou protagonismo, mas tornou-se numa referência em Pittsburg sendo conhecido, pois claro, pelo "Million Mile Man" (o homem das um milhão de milhas). Agora recebe o apoio de muitos conhecidos e desconhecidos para que conclua a sua incrível história, que ganhou um capítulo de drama inesperado, mas que o ciclista quer transformar num capítulo de superação.

22 de outubro de 2016

Cavendish critica sistema de pontos que poderá deixar a Dimension Data fora do World Tour

(Fotografia: Team Sky)
No próximo mês serão conhecidas as equipas que vão receber as licenças World Tour para 2017. Porém, o mal-estar causado pela redução do número de 18 para 17, com 18 pretendentes, está a tornar-se num tema cada vez mais controverso, à medida que se aproxima a decisão final da UCI. Com a Dimension Data a ser a principal candidata a ficar de fora, depois de ter subido este ano, já não são só os responsáveis da equipa que falam desta situação. A estrela da equipa sul-africana, Mark Cavendish, disparou agora contra o sistema de pontos, considerando que não fazem sentido e que não promovem a procura pela vitória.

"Ganhar uma etapa na Volta a França é como estar em 12º ou 16º na classificação geral. Portanto, o que se vai fazer? Investir em alguém que não vai ganhar uma corrida e vai andar por ali, ou em alguém que vai vencer ao mais alto nível?", questionou o britânico, que está a competir na Volta a Abu Dhabi, tendo vencido a segunda etapa.

Cavendish refere-se ao facto das suas quatro vitórias e a de Steve Cummings no Tour terem garantido 20 pontos cada, os mesmos que Sergio Henao conseguiu por terminar na 12ª posição da geral.  Durante toda a temporada a Dimension Data somou 290 pontos, ficando longe da IAM Cycling (418) ou da Giant-Alpecin (435), já que a IAM acaba por não entrar nas contas do próximo ano, pois prepara-se para fechar portas. 290 pontos para uma Dimension Data que somou 32 vitórias este ano, só que a muitas foram em provas fora do calendário World Tour e o brilharete na Volta a França acabou por ser pouco compensado.

Para o ciclista também foi um erro o anúncio da redução de licenças ter sido feito a meio da temporada: "Não é o ideal quando se fez metade da época e percebe-se que se tem de conquistar mais pontos. Quando descobrimos, já só sobrava o Eneco Tour. Um lugar secundário na classificação geral valer o mesmo que uma vitória... não faz sentido."

Se as 18 equipas que apresentaram candidatura às licenças World Tour cumprirem todos os requisitos, o sistema de pontos deverá decidir quem fica de fora. Perante as contratações feitas pelas duas novas candidatas, a recém-constituída Bahrain-Merida e a Bora-Hansgrohe que quer subir de escalão, a formação do Médio Oriente soma 905 pontos e a alemã 864 (o que as colocaria no quinto e sexto lugar do ranking).

Associação Internacional de Equipas de Ciclismo Profissionais (AIGCP-sigla em francês) anunciou que irá lutar contra algumas das alterações anunciadas pela UCI e uma das exigências é que as 18 equipas que pediram licença World Tour a recebam. Caso isso não aconteça, a Dimension Data sofre um rude golpe nas suas aspirações, pois, pertencendo ao escalão Profissional Continental, terá de esperar por convites para participar nas grandes corridas.