17 de dezembro de 2017

"Os gémeos Oliveira são um exemplo que outros quererão seguir"

Foi um ano de confirmação do ciclismo de pista em Portugal. Depois de um longo e árduo trabalho feito nas camadas jovens, os resultados começaram agora a aparecer em elite. As referências são inevitavelmente os gémeos Oliveira, que tem conquistado medalhas em todos os escalões. Com os Jogos Olímpicos em mente, é tempo de continuar a evolução com os actuais corredores e consolidar o projecto de forma a permitir que novos talentos continuem a emergir. Gabriel Mendes é por isso um homem orgulhoso do trabalho que está a ser desenvolvido numa vertente com pouca tradição no país, mas que está cada vez mais a afirmar-se. No entanto, o seleccionador nacional quer elevar ainda mais o nível do ciclismo de pista, realçando que será cada vez mais difícil à medida que se vai aproximando dos melhores.

"Cada vez que nós vamos subindo, mais difícil é fazê-lo. É necessário mais investimento. Precisamos de consolidar a nossa presença internacional no nível de elite", salientou Gabriel Mendes ao Volta ao Ciclismo. O seleccionador acrescentou a necessidade dos atletas competirem ainda mais, pois "essa experiência vai permitir refinar e ir evoluindo progressivamente". "Talento e capacidade existem, mas vamos ter de as trabalhar. Não vivemos só de potencialidade", disse. Contudo, referiu que não se pode deixar de trabalhar na base: "Paralelamente vamos também procurar verificar se temos outros atletas que vão surgindo e que possam também fazer este percurso."

Em Outubro, Rui Oliveira tornou-se no primeiro português a conquistar uma medalha em pista na categoria de elite, com o bronze na corrida de eliminação. No dia seguinte, Ivo ficou com a prata na perseguição individual e na qualificação alcançou um tempo (4.14.570) que só está ao alcance dos melhores. Em Julho, Rui tinha sido campeão europeu da especialidade em sub-23 e Ivo, bronze também na vertente em que tem demonstrado estar cada vez mais forte. "Este foi um ano em que atingimos alguma consolidação de resultados e tivemos alguns de muito bom nível. O Ivo fez um tempo de excelência e não é fácil repetir muitas vezes na carreira o nível de desempenho que teve na perseguição individual na qualificação. Mas não é só a questão dos resultados. Estes só são alcançados se nós tivermos um processo de trabalho orientado", referiu o seleccionador nacional.

"A pista é um período do trajecto do desenvolvimento que o atleta pode fazer ao mais alto nível, sempre que existe uma possibilidade de conjugação"

E este processo começou em finais de 2010. Então, Gabriel Mendes chegou à federação e agarrou no projecto de uma escola de ciclismo de pista. O responsável recorda que no centro de alto rendimento estiveram vários jovens que se foram mostrar nesta vertente. "Nós seleccionámos e iniciámos um processo de trabalho muito focado nas técnicas básicas, naquilo que eram os alicerces do trabalho técnico a desenvolver", explicou. O primeiro resultado foi o aumento de qualidade das corridas nacionais. Foi nessa fase inicial que surgiram os gémeos Oliveira. Identificado o potencial de ambos, em 2013 estrearam-se pela selecção e foi o início de uma etapa de enorme sucesso, com títulos logo no escalão de juniores.

Gabriel Mendes realçou a importância de ter sido possível realizar um trabalho de continuidade. Ou seja, através de uma coordenação com os clubes, é possível manter os treinos e competição de pista, conjugando com as responsabilidade vertente de estrada. "É esta coordenação que permite que tenhamos um processo continuo que tem vindo sempre a evoluir", afirmou. Apesar de muitos jovens pensarem em carreiras como ciclistas de estrada, a pista entrou definitivamente nos planos de muitos: "Eles têm um gosto intrínseco desde a primeira hora que vieram à pista. A partir daí é uma questão de planear a médio/longo prazo e de organização. A pista é um período do trajecto do desenvolvimento que o atleta pode fazer ao mais alto nível, sempre que existe uma possibilidade de conjugação. E se houver, é possível fazer as duas vertentes sem qualquer problema e com benefícios."

Os gémeos Oliveira estão a tornar-se no grande exemplo em Portugal de como se pode ter sucesso na pista e ter futuro na estrada. Este ano representaram a Axeon Hagens Berman de Axel Merckx, com o director belga a dar liberdade para que Ivo e Rui continuassem a competir na pista, enquanto desenvolvem as suas qualidades de estrada.

"Os gémeos Oliveira são um exemplo que outros quererão seguir", frisou Gabriel Mendes, que disse ainda que Ivo e Rui "têm um papel extremamente importante para que o ciclismo de pista seja hoje em Portugal uma modalidade que se está a afirmar". "A nível internacional, os atletas que têm sucesso a nível de pista, na endurance, são atletas que têm um caminho de sucesso de estrada. E eles estão a fazer esse processo e bem. E isso é um exemplo para os mais novos que querem também fazer o seu percurso", afirmou.

"Nós acreditamos que [a qualificação para os Jogos Olímpicos] é possível"

No sector feminino, Soraia Silva e Maria Martins têm sido as principais apostas. Sub-23 e júnior, já vão competindo com a elite para começar a ganhar experiência, mas sem a pressão de alcançarem resultados no imediato. "Os objectivos são muito claros: elas estão a trabalhar com o foco no desenvolvimento técnico e táctico." Gabriel Mendes quer que seja feito este trabalho de base e que se verifique uma evolução sustentada para que daqui a poucos anos estejam muito competitivas e a grande nível na pista.

E com tão bons resultados, já muito se fala de uma presença olímpica, o que será uma estreia nesta vertente do ciclismo em Portugal. Tóquio2020 aproxima-se e a qualificação começa no próximo verão. "É extremamente importante a presença nos Campeonatos do Mundo no omnium para termos aspirações e iniciarmos o processo de qualificação da melhor forma. Isso implica a qualificação para a Taça do Mundo", explicou o seleccionador. Há um "encadeamento", como referiu, destas competições, mais os campeonatos continentais, para que se possa assegurar um lugar no Jogos Olímpicos. O omnium é a disciplina eleita, ainda que o madison também está a ser trabalhado. "Nós acreditamos que é possível", realçou.

Além dos gémeos Oliveira, João Matias e César Martingil têm sido dois dos ciclistas mais chamados nos últimos meses por Gabriel Mendes e todos eles estão focados e motivados para continuar a elevar ainda mais a qualidade do ciclismo nacional. Para isso, o velódromo em Sangalhos tem sido de extrema importância, tanto por ser o centro de alto rendimento da modalidade - partilhado pela ginástica, esgrima, judo e trampolim -, pois além de treinos, tem recebido competições internacionais, como foi o caso em 2017 dos Europeus de sub-23 e juniores e neste último fim-de-semana a Taça Internacional Município de Anadia, que trouxe a Portugal medalhados em Jogos Olímpicos, Mundiais e Europeus.

"Temos um excelente velódromo e tentamos aproveitar ainda as condições que o centro de alto rendimento proporciona. Nós temos aqui a nossa academia e é uma estrutura muito importante para o trabalho que a selecção de pista desenvolve", reiterou Gabriel Mendes, que gostaria também de poder contar "com pistas abertas com características idênticas". Contudo, em Sangalhos, estão a nascer o que se espera ser as primeiras grandes referências do ciclismo de pista nacional.

»»Portugueses com seis medalhas no Troféu Internacional Município de Anadia««

»»"Quando vierem [assistir ao ciclismo de pista] vão ver que é emocionante!"««

»»Nova medalha para Rui Oliveira e os dois pontos que tiraram o bronze a Miguel Salgueiro««

»»Gémeos Oliveira e João Matias em destaque no primeiro dia de competição««

Portugueses com seis medalhas no Troféu Internacional Município de Anadia

Miguel Salgueiro e  Rodrigo Caxias subiram ao pódio na perseguição individual
O último dia de competição no Velódromo Nacional teve os juniores em destaque para Portugal na conquista de medalhas, mas naturalmente que o centro das atenções foram para as disciplinas olímpicas, dominadas pela selecção belga. No final, o saldo registou-se em seis medalhas para ciclistas portugueses, com Ivo Oliveira a ser o único vencedor e com o irmão Rui a ser o único a subir duas vezes ao pódio, no terceiro lugar.

O saldo terminou então com vitória e terceiro lugar no scratch, na categoria de sub-23, terceiro no omnium em elite e este domingo Wilson Esperança (Sicasal-Bombarral) - na foto ao lado - foi segundo no scratch em juniores. Na mesma categoria, Miguel Salgueiro (ACD Milharado) e Rodrigo Caxias (LA Alumínios/SGR Ambiente/CCA Paio Pires) foram ao pódio na perseguição individual, que teve o francês Donavan Grondin como claro vencedor.

Um dos momentos do dia foi de mais um susto para a selecção nacional. Maria Martins caiu na corrida por pontos, mas conseguiu prosseguir. Foi uma competição acidentada para as raparigas da equipa, já que Soraia Silva também caiu no primeiro dia. Antes dessa prova, a júnior Maria Martins tinha tido uma boa prestação no scratch, na categoria de sub-23, terminando na quinta posição. Soraia foi 11ª.

No keirin, disciplina olímpica que não contou com portugueses, a jovem belga Nicky Degrendele bateu a actual vice-campeã europeia Simona Krupeckaite (Lituânia) e a atual campeã olímpica, Elis Ligtlee (Holanda). Nos homens, o lituano Vasilijus Lendel foi o mais forte. O holandês Sam Ligtlee foi segundo e o compatriota Svajunas Jonauskas, terceiro.

Mas a principal atenção acabou por se focar no madison, última corrida do Troféu Internacional Município de Anadia. João Matias e César Martingil uniram esforços pela selecção nacional, enquanto Ivo e Rui Oliveira vestiram as cores da Axeon Hagens Berman. Os gémeos terminaram na sexta posição com nove pontos, enquanto Matias e Martingil foram oitavos, com cinco. A Bélgica terminou com 29, com a prestação de Lindsay de Vylder e Robbe Ghys - dupla campeã de sub-23, seguindo-se duas equipas de holandeses. Em segundo ficaram Dion Beukeboom e Jan-Willem van Schip (23) e a fechar o pódio Yoeri Havik e Wim Stroetinga (15). De recordar que Beukeboom irá em Agosto tentar bater o recorde da hora de Bradley Wiggins.

16 de dezembro de 2017

"Quando vierem [assistir ao ciclismo de pista] vão ver que é emocionante!"

(Fotografia: João Calado/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Ali andam eles, às voltas, numa pista com 250 metros, normalmente a grande velocidade, com uns toques quando são corridas em grupo, potência total nas provas de contra-relógio. O tradicional ciclismo de estrada chama muitas pessoas à estrada, mas o ambiente do velódromo ainda está a conquistar adeptos em Portugal. No entanto, o ciclismo de pista português está a crescer, pelo que o interesse também aumenta. Mas afinal, o que atrai tanto nesta vertente da modalidade? Alguns ciclistas portugueses, que estão a competir no Troféu Internacional Município de Anadia, explicam e todos concordam: quem for pela primeira vez assistir, irá certamente regressar.

"Se o público viesse pela primeira vez, tenho a certeza que ficaria com aquele bichinho e continuaria a vir." Rafael Silva deu o mote. O ciclista da Efapel é um dos portugueses que está a competir no Velódromo Nacional, em Sangalhos, que durante três dias foi novamente escolhido para uma prova internacional, depois do Campeonato Europeu de sub-23 e juniores. "Muitas pessoas nem têm ideia do espectáculo que é a pista. Pensam que uma pessoa anda aqui e que não há espectáculo, mas é uma competição que tenha 30, 40 ou 50 minutos, vê-se a corrida toda, não é como na estrada", salientou ao Volta ao Ciclismo.

O ainda companheiro de equipa António Barbio - em 2018 irá representar o Miranda-Mortágua - acrescentou: "Quando vierem vão ver que é emocionante!" A júnior Maria Martins reforçou: "Não tenho as mínimas dúvidas que quando vieram cá uma vez, ficam fãs." E reforçou: "Temos uma equipa muito boa [a selecção nacional], que tem estado a desenvolver projectos e resultados fantásticos. Agora acho que precisamos de ter mais confiança do nosso povo. Apostem em nós, venham cá apoiar-nos que é bastante importante."

Já João Matias conhece bem alguns dos grandes fãs. "Podem falar com o meu pai e com o pai dos gémeos Oliveira. Acho que são dos principais fanáticos do ciclismo de pista! Este Troféu Internacional tem alguns dos melhores ciclistas a nível mundial e a entrada é gratuita. Aqui dentro está quentinho em Dezembro! Lá fora está um frio desgraçado! Podem-nos ver, falar connosco... Isto é muito bom", referiu, bem disposto. Tal como Maria Martins, Matias está a representar a Selecção Nacional na competição que termina este domingo.

Ivo Oliveira, é juntamente com o irmão Rui, a principal referência desta vertente em Portugal. Soma medalhas desde o escalão de juniores e já viveu todo o tipo de ambientes na pista. O ciclista português, que também está a representar a selecção, adoptou um tom mais crítico. "Não sei se é por causa da divulgação que é mal feita... Penso que poder-se-ia fazer um melhor trabalho nesse aspecto. Se calhar a maioria das pessoas nem sabe que esta prova existe. Se soubessem, eu acho que apareceriam. Acho que elas gostam", afirmou. "Há muitos anos que o público não aparece. Este ano nem me posso queixar. Tivemos muita gente no Campeonato da Europa e o público gosta de aparecer nessas [competições]", acrescentou Ivo Oliveira, realçando como é muito diferente competir num velódromo cheio. "Tem de se chamar mais público", apelou.

Maria Martins é a mais nova e ainda está a tentar encontrar o caminho do profissionalismo no difícil mundo do ciclismo feminino. Já os restantes já conseguiram arrancar com a carreira na estrada. No entanto, todos gostam de incluir a pista no seu programa, até porque também tiram benefícios quando regressam à estrada.

"É uma grande vertente para preparar a estrada. Principalmente no Inverno podemos treinar aqui muito bem. Às vezes quando está a chover, podemos fazer um trabalho muito melhor aqui do que na estrada", explicou Ivo Oliveira. Todos partilham essa opinião, tal como o ambiente mais próximo que existe entre os ciclistas.

Desde muito novos que a atracção pela pista existe nestes ciclistas. Falam mesmo no "bichinho" que não mais se foi embora. "É uma modalidade que eu comecei a fazer em júnior e desde cedo que me adaptei bem. Esse é o primeiro ponto para eu gostar de ciclismo de pista. A partir daí acho que é o ambiente familiar. Acabamos por estar todos juntos nas boxes, por nos conhecer muito bem e viver o ciclismo de maneira diferente. Desfrutamos dentro e fora das corridas", contou João Matias.

"É o ambiente que se vive dentro da pista, a adrenalina que nos dá... Uma pessoa não tem a noção de fora", desabafou Maria Martins, que não esconde a sua paixão por esta vertente do ciclismo.

Para Rafael Silva "é o ambiente aqui na selecção" que começa logo por cativar e querer estar nestas provas. Mas há mais: "Em termos físicos e para a nossa preparação é muito importante, visto que rodamos aqui pouco tempo, mas a grande intensidade, tudo aquilo que nós não fazemos a treinar. Para nós, neste defeso que não temos competição, é uma mais valia. E está a chover lá fora e está frio e aqui está quentinho! A pista é uma mais valia para as futuras competições e desfrutamos aqui muito. Aprendemos tacticamente e tecnicamente."

António Barbio acrescentou: "Quatro meses a trabalhar, com o objectivo lá longe, é mais fácil psicologicamente termos algumas falhas. Tendo estes pequenos objectivos [na pré-época], não só para estar bem, mas também por estar com os colegas, acho que a preparação para a estrada se torna mais fácil e mais agradável."

Ou seja, para estes ciclistas tanto eles como o público têm a ganhar com o ciclismo de pista. Enquanto uns praticam e melhoram como atletas, outros têm a oportunidade de assistir a um espectáculo diferente da modalidade. E este domingo, o último dia do Troféu Internacional Município de Anadia, as provas arrancam às 10:00 com o keirin. Serão corridas sem interrupção até cerca das 15:30, com scratch, perseguição individual e madison a também fazerem parte do programa.

E como João Matias frisou, a entrada é gratuita.

»»Nova medalha para Rui Oliveira e os dois pontos que tiraram o bronze a Miguel Salgueiro««

»»Gémeos Oliveira e João Matias em destaque no primeiro dia de competição««

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